Abuso de religiosas: uma reflexão à luz da realidade africana é tema de debate no IHU na próxima semana

Mary Lembo, doutora em Psicologia, tematiza os abusos na Igreja com base na experiência africana, nesta terça-feira, às 10h, no IHU

Foto: Reprodução Vatican News

29 Novembro 2025

“Será o tema do abuso espiritual a próxima grande purificação da Igreja Católica, após os escândalos de pedofilia?” A pergunta do teólogo e educador Luís Alberto Bassoli expressa uma ferida aberta na Igreja e a dificuldade dos discípulos de Cristo seguirem os conselhos evangélicos e agirem segundo o Espírito de Deus e não segundo o espírito do mundo.

No contexto geral da crise dos abusos na Igreja, o abuso espiritual tem aparecido como um problema, disse Barbara Haslbeck, teóloga e assessora do centro de apoio Contra a Violência na Igreja, em entrevista nesta semana. “Em um nível psicológico, isso é obviamente devastador, porque a pessoa percebe: ‘Ao me abrir, me tornei vulnerável, e foi exatamente isso que foi explorado’. Também surgem sentimentos intensos de vergonha e culpa. Por um lado, há a sensação de estar completamente sozinha com a experiência e ter que permanecer em silêncio sobre ela”, explica, ao abordar as consequências psicológicas desse tipo de violência.

Dos abusos, disse Adrien Candiard, frade dominicano e membro do Instituto Dominicano de Estudos Orientais, nasce um drama humano: “a destruição, parcial ou total, da minha capacidade de doar-me”. Essa úlcera que ocorre na vida religiosa e gera danos na Igreja, argumenta o teólogo, “é uma oportunidade: redescobrir o verdadeiro sentido das noções, libertadas de usos perversos. Não abandonar esses termos — renúncia, sacrifício — porque às vezes foram transformados em instrumentos de destruição. Relê-los à luz desses ensinamentos dolorosos não significa colocar uma tampa sobre algo, mas continuar a meditar a sequela de Cristo”.

Os abusos na sociedade e na Igreja. Da cultura do silenciamento à cultura do cuidado está sendo debatido no ciclo de estudos promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos — IHU neste semestre. Na próxima terça-feira, 02-12-2025, Mary Lembo, religiosa de Togo, pequeno país da África Ocidental, psicóloga e psicoterapeuta, vai abordar o tema à luz da tese doutoral Religieuses abusées en Afrique. Faire la vérité, defendida na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. A pesquisa visa entender a dinâmica que leva a situações de abuso em contexto pastoral e é embasada em entrevistas com doze religiosas que residem em quatro países da África Ocidental e uma em um país da África Oriental. O estudo, segundo a religiosa, tem como finalidade prevenir novos casos de abuso, educar a comunidade eclesial para que não sejam repetidos e formar novos membros conscientes. 

Mary Lembo entrevistou religiosas que foram abusadas por padres e destaca as distorções cognitivas que levam a relações interpessoais abusivas. “São feitas distorções cognitivas na interpretação da palavra de Deus ou dos valores cristãos em favor do agressor. Trata-se, por exemplo, de fazer acreditar à mulher consagrada que o celibato consiste em não se casar, mas que eles – padres – podem ter relações sexuais”, relata. As relações entre jovens consagradas e os sacerdotes, pontua, por vezes é permeada de confusões. “Às vezes, o padre abusador lhe dá a impressão de que ela é ‘especial, diferente das outras’, que ele a escolheu. Isso pode provocar conflitos com o resto da comunidade. O diálogo se rompe e a jovem mulher se isola das outras”, exemplifica.

A religiosa tem defendido a necessidade de as Conferências Episcopais investigarem casos de abuso nas comunidades religiosas e ouvirem as pessoas abusadas, além de investirem na formação do clero. “É necessário formar os padres e os seminaristas, para que tenham um comportamento respeitoso em seu empenho e para com as mulheres consagradas. A concepção reducionista da mulher, particularmente na África, faz-nos acreditar que ela não tem voz, que deve aceitar tudo e que se ela cala significa que que ela consente. Não: o consenso deve ser pronunciado, aberta e claramente. A igualdade entre a mulher de Deus e o homem de Deus só pode existir se o não da mulher for respeitado”. Sensibilizar, educar, formar e acompanhar, assegura, são as ações que devem orientar a Igreja no enfrentamento dos abusos.

A quantidade de artigos e reportagens publicados no 25N — Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres dá visibilidade à violência contra a mulher em todas as esferas da sociedade, com destaque para os abusos que ocorrem no interior da própria família. A teóloga colombiana Consuelo Vélez se manifestou sobre o tema na última segunda-feira. Ela defendeu a erradicação da violência como um compromisso da fé. “Não parece haver muitas vozes, da perspectiva dos crentes, que denunciem toda a violência perpetrada contra as mulheres. Não há autocrítica em relação à espiritualidade praticada, que permite tanta violência sem exigir mudanças. Não parece haver um compromisso firme em demonstrar coerência com a dignidade inviolável de todo ser humano, neste caso, das mulheres, promovendo uma igreja sinodal que inclua as mulheres de forma plena e efetiva, especialmente nos níveis de tomada de decisão. Poucos passos são dados e há muita resistência. As palavras de Paulo aos Gálatas ainda precisam ser colocadas em prática: ‘Não há homem nem mulher; pois todos vocês são um em Cristo Jesus’ (Gálatas 3,28)”. 

A conferência de Mary Lembo, intitulada "Patriarcado, clericalismo e os abusos das religiosas", será ministrada às 10h e transmitida na página eletrônica do IHU, nas redes sociais e no Canal do YouTube. O ciclo de estudos “Os abusos na sociedade e na Igreja. Da cultura do silenciamento à cultura do cuidado” pretende abordar os abusos em suas múltiplas formas, tanto na sociedade quanto na Igreja. A atividade é gratuita. 

Será fornecido certificado a quem matricular-se em cada conferência e, no dia do evento, preencher o formulário de presença disponibilizado somente durante a transmissão. As demais conferências do ciclo estão disponíveis aqui. A programação completa pode ser acessada na página do evento.

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