29 Novembro 2025
"Nur ala nur, nur ala nur", canta a irmã na igreja semiescura de Deir Mar Musa. Como todos os dias ao amanhecer, os monges que vivem no alto das montanhas voltadas para o deserto de Nebek entoam a tradicional oração matinal: "Nur ala nur", "Luz da luz". Desde que Paolo Dall'Oglio fundou a pequena comunidade em 1991 e revitalizou os assentamentos monásticos do século XI, o dia sempre começa assim: oração e silêncio.
A reportagem é de Luca Geronico, publicada por Avvenire, 26-11-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Mar Musa, explica a Irmã Houda — uma das primeiras irmãs a entrar na comunidade — acolhe espontaneamente as esperanças de paz e os temores da nova Síria. "Todos são bem-vindos. Vêm do exterior: China, Polônia, Itália. E também muitos jovens sírios, cristãos e muçulmanos, vêm aqui para passar alguns dias juntos." Pequenos "laboratórios" de convivência, deixando de lado a religião pessoal: "Caminhar juntos" ou "Nós somos Síria" é o nome dado a esses momentos de simples troca e partilha. É a busca, no silêncio do deserto, por uma nova Síria que não se rende ao fanatismo e ao fundamentalismo.
A Síria, quase um ano após a queda de Assad, tem mais fome do que antes: "Não há trabalho: esperamos que algo bom aconteça, que cheguem os investimentos. Há tanta pobreza. Estamos esperando por algo..." continua a Irmã Houda com voz baixa. Durante a guerra civil, tendo perdido o contato com o Padre Paolo Dall'Oglio em 2013, ela sustentou o peso da comunidade.
A Síria tem fome, inclusive de futuro. "A democracia não é descrença, ateísmo. A democracia é um valor espiritual”, explica o Prior Padre Jihad Youssef, sentado em seu gabinete. Seus posts nas redes sociais são uma das vozes que melhor interpretam os sentimentos dos cristãos sírios. Não se trata de um desejo de se envolver na política de um religioso, mas sim de começar um debate. “Aqueles que dizem ter vencido Assad, e são de maioria sunitas, gostariam de governar com base, basicamente, na lei islâmica da Sharia. Eles se perguntam: o que é melhor do que a lei de Deus para governar? Mas a experiência nos diz que o rei perfeito não existe. Além disso, a lei de Deus é uma lei sobre os corações. Não uma forma de direito positivo”, explica o prior.
Se a laicidade e a democracia são tradicionalmente consideradas pelo Islã como invenções ocidentais, uma ameaça aos fundamentos religiosos da sociedade islâmica, “nós defendemos que a democracia não é contrária à vontade de Deus, mas sim um instrumento que traduz o potencial para o bem da natureza humana. Gostaríamos de construir uma democracia que leve em consideração a religião e que parta do desejo de uma sociedade multicultural e multirreligiosa de viver em paz”, continua Abuna Jihad. Trata-se da busca por uma base democrática comum para um povo impregnado de religiosidade, pensando no futuro e com uma nova Constituição a ser escrita juntos. Mas, após o entusiasmo dos primeiros meses, os primeiros passos do novo governo decepcionaram muitos.
A Conferência de Diálogo Nacional se resumiu a pouco mais que um desfile de notáveis que durou apenas seis horas. Como essas reflexões foram recebidas? “Nós estamos à disposição, e isso não exclui a possibilidade de que aqueles que estão atualmente no governo possam prestar atenção, realizar um levantamento com a sociedade. Mas é claro que uma grande parte dos sunitas quer um Estado de viés islâmico e que há uma onda salafista que já impôs efetivamente práticas e costumes islâmicos.” O prior de Mar Musa também participou do Comitê de Diálogo Nacional e “foi dito muito claramente que os cristãos apoiam um conceito de cidadania. O presidente al-Shaara e sua comitiva receberam repetidamente esse pedido, inclusive de muitos muçulmanos: a Síria só pode ser pluralista. No entanto, queremos uma democracia ‘made in Síria’. Se o problema é o nome ocidental de ‘democracia’, então que seja usado o termo "shura", a assembleia. Poderíamos começar por aí e desenvolver o conceito dentro das instituições.
"Nur ala nur, nur ala nur." A Síria ainda busca a luz da democracia.
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