29 Novembro 2025
"Anotei ao longo dos dias a sensação de uma COP que, embora seja um espaço tradicionalmente voltado às negociações entre governos, viveu talvez sua edição mais popular", escreve Daniela Reis, advogada, professora e coordenadora-Geral de Justiça Socioambiental e Direitos Territoriais no Ministério da Justiça, em artigo publicado por ((o))eco, 27-11-2025.
Eis o artigo.
“Você pode me ajudar a gravar um vídeo? Sou lá do Acará.”
A cena aconteceu antes mesmo de eu entrar na COP. Era o primeiro dia de incidência e trabalho, e uma fila que dobrava o quarteirão reunia quem tentava acessar a área aberta da zona verde. Entre quem chegava, quem passava e quem permanecia, às 10h os portões finalmente se abriram – apenas para que formássemos uma nova fila diante do detector de metais.
Foi ali, quando todos pisavam pela primeira vez no espaço e corriam para tirar fotos diante do letreiro “COP 30”, que uma liderança do município paraense de Acará me abordou. Ele fez questão de se apresentar assim: “Vim aqui para ver o que tem”. Celular em mãos, ajudei ele e outras três pessoas a gravarem pequenos vídeos, todos começando com a mesma frase espontânea, quase um manifesto:
“Olha, gente, estamos aqui na COP. Viemos reivindicar nossos direitos.”
“Estamos participando da COP. Em breve mandamos mais notícias.”
Quando mencionei que vinha de São Luís, no Maranhão, seguimos conversando enquanto avançávamos lentamente na fila. Falamos sobre direito à cidade. Ele, com simplicidade direta, disse que, apesar das belezas da região, faltam espaços de participação, convivência e lazer. Em Acará – um município de pouco mais de 50 mil habitantes – a vida ainda pulsa sobretudo às margens do rio, do açaí e do extrativismo que sustenta grande parte da população. “Você precisa ir lá conhecer”, insistiu, já me convidando.
Perguntei o que ele esperava da COP. Ele pensou um pouco e respondeu apenas: “Vim ver”. Não precisou dizer mais. Entre uma troca e outra, já estávamos combinando minha futura visita ao Acará, acompanhada, claro, de um bom açaí.
Ao longo do dia, reencontrei meu novo companheiro diversas vezes, sempre circulando entre os estandes mais cheios, assim como professores, estudantes de institutos federais, indígenas, jovens, adultos, muitas crianças e representantes que tinham ido para palestrar e serem ouvidos. Os espaços dedicados aos movimentos estavam sempre lotados: o Círculo dos Povos, o Pavilhão do Governo Federal, a tenda da Defensoria Pública da União, o Ministério Público Federal e o Ministério Público do Trabalho.
Mas o fluxo também era grande nas áreas ocupadas por instituições financeiras e de desenvolvimento – Banco do Brasil, Caixa, BNDES, Itaipu – além do Sebrae e do espaço de participação dos parlamentares.
Nos intervalos, o retrato do país real: queixas sobre a água quente, o calor excessivo, a chuva repentina, a comida cara. Ainda assim, no quinto dia, as filas quilométricas continuavam se formando.
Ao apresentarmos nossos projetos, ouvi perguntas diretas e contundentes: “Mas o que isso tem a ver com o calor que está fazendo?” Ou comentários sobre desigualdade estrutural: “Lá na zona azul eles estão muito melhor. Aqui ficou só o povo mesmo.”
Esse povo, que se espremia nos auditórios, acompanhou debates sobre urbanismo compatível com o bioma amazônico; ouviu que a Amazônia é também um território urbano, discutiu a Caatinga e seu potencial para créditos de carbono; reforçou a centralidade dos territórios indígenas na preservação ambiental; viu projetos de monitoramento e tecnologia para prevenção ao desmatamento; e refletiu sobre o papel do judiciário na defesa do clima e sobre como informações básicas podem ser acessadas por quem quer entender mais sobre justiça climática e socioambiental.
Viu, emocionado, o documentário sobre o Massacre de Pau D’Arco e comemorou ao reconhecer, no auditório, o advogado popular retratado no filme – vivo, presente e disposto para discutir o caso. “Somos de Conceição do Araguaia. Viemos saber o que vão falar da nossa região”, disseram.
As defensorias públicas estaduais apresentaram projetos robustos e inovadores, em um ambiente marcado por trocas intensas, reconhecimento mútuo e gratidão. O espaço reuniu práticas de todos os estados do país, evidenciando o papel fundamental da Defensoria na garantia de direitos e revelando as nuances que conectam territórios tão distintos, cada um com suas dinâmicas, desafios e caminhos de acesso à justiça.
Fora dos espaços oficiais, a COP seguia pulsando. Nas rádios, nos ônibus, nos restaurantes, tudo girava em torno do evento. Um motorista de aplicativo, por exemplo, me contou que “as negociações até estavam avançando, mas alguns países ricos começaram a criar confusão”. Aproveitou para opinar sobre a mobilização indígena:
“Não é justo né? Os mais afetados não podem participar”.
Anotei ao longo dos dias a sensação de uma COP que, embora seja um espaço tradicionalmente voltado às negociações entre governos, viveu talvez sua edição mais popular. Uma COP atravessada por greenwashing e contradições – como tantas outras –, mas também marcada por uma participação incomum de gente real, mobilizada, que deu rosto e voz às discussões climáticas.
Por alguns dias, esse povo ocupou a COP. E não apenas ocupou: debateu, questionou, denunciou contradições e reivindicou protagonismo no maior evento climático do mundo.
Entre as contradições expostas, os discursos oficiais e os movimentos que não deixam a agenda esfriar, fica evidente que justiça climática não se faz sem gente real, presente, diversa, reivindicando o direito de existir e decidir.
E o povo decidiu ocupar – porque ocupar, ali, era também existir.
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