29 Novembro 2025
"O episódio, contudo, demonstra que para aqueles que se opõem à violência do poder, e de um poder patriarcal posto em questão, que a distinção entre agir com força política e simbólica ou ceder à linguagem da violência é fundamental. Uma palavra errada basta para pôr um jogo a perder", escreve Alberto Leiss, jornalista, em artigo publicado por Il Manifesto, 25-11-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
“A condição do que se chama de forma de pensar popular não apenas está em crise, mas em uma crise extremamente dissolvente e perigosa (...) Quem ainda acredita hoje seriamente que, transformando os triunfos da ciência teórica em triunfos ainda mais estupendos da tecnologia, está se salvando a cultura? (...) Nossa sociedade está repleta de sintomas inquietantes, que podem ser adequadamente reunidos sob o nome de ‘enfraquecimento do raciocínio’ (...) Vivemos em um mundo em todos os sentidos muito mais informado sobre si mesmo...”. Mas “...a loucura em todos os seus aspectos, burlescos e cômicos, malignos e nocivos, nunca como hoje celebrou suas orgias pelo mundo.”
O estilo é um tanto pomposo, mas podem até parecer considerações atuais. Na verdade, são tiradas do livro de Johan Huizinga, publicado em 1935, Nas Sombras Do Amanhã (Editora & Livraria Caminhos, 2017). O grande historiador holandês, conservador, lançava um grito de alarme sobre o perigo representado pelo nazismo.
Livro de Johan Huizinga. (Foto: Reprodução/Amazon)
Não é novo o paralelo entre o que vem acontecendo ao nosso redor há algumas décadas, a catástrofe que cresceu e explodiu com a Segunda Guerra Mundial e o genocídio dos judeus na Europa durante as décadas de 1920 e 1930. Por que repropor aqui hoje, no Dia Internacional pelo Fim da Violência contra as Mulheres, esse dramático questionamento? Estaremos caminhando rumo uma noite escura semelhante? Olhando para Kiev, Gaza, Sudão e a liderança de homens como Trump, Putin e Netanyahu (a lista seria longa), pode-se temer isso.
Mas acredito que outra leitura também é possível: são as tentativas desconexas, trágicas e "insanas" de manter vivo um mundo que já não consegue mais se sustentar. Algo que tem muito a ver com o declínio catastrófico do patriarcado.
Essa é uma palavra que está na boca de muitos e muitas no discurso público atual.
No sábado à noite, acompanhei por um longo trecho a manifestação nacional convocada pelo movimento Non Una di Meno em Roma. A marcha aberta por uma grande faixa com os dizeres: "Contra a violência sistêmica patriarcal". "Vamos sabotar guerras e patriarcado." Outra faixa: "A liberdade feminina é a nossa revolução." Vi um mar de jovens, homens e mulheres, caminhando, mas também dançando e rindo em meio ao frio. E não poucos meus pares, que talvez desejassem ter as mesmas energias.
Slogans contra a violência, palavras que evocavam raiva, mas também desejo de mudança e felicidade, e a canção em memória de Ornella Vanoni. Pausas foram feitas ao longo do percurso para que aquelas pessoas que caminham com dificuldade pudessem descansar. A marcha terminou em San Giovanni sem qualquer problema de ordem pública.
Quando voltei para casa, esperava ver algo sobre esse dia no noticiário das 20h da La7, que costumo assistir. Em vez disso, nada. Houve, no entanto, uma reportagem sobre os confrontos em Bolonha do dia anterior. Não mais do que algumas menções — exceto nas páginas de notícias romanas — nos jornais de domingo. Com a exceção, claro, deste jornal. O Corriere della Sera "remediou" ontem, dois dias depois, noticiando em sua página nacional sobre polêmicas causadas por uma placa, certamente resultado do "enfraquecimento do raciocínio" de quem a escreveu e exibiu (não reparei) com as palavras "-Feminicídios + Melonicídios". É justo criticá-la. E esperar o mesmo daqueles que organizaram a manifestação.
Mas será que a cobertura tardia daquela manifestação pode ser reduzida a isso?
O episódio, contudo, demonstra que para aqueles que se opõem à violência do poder, e de um poder patriarcal posto em questão, que a distinção entre agir com força política e simbólica ou ceder à linguagem da violência é fundamental. Uma palavra errada basta para pôr um jogo a perder.
Leia mais
- Quatro coisas que é preciso saber sobre o patriarcado (e por isso continuaremos a falar). Artigo de Daniela Brogi
- O início de um fim: a resistência contra a violência do patriarcado. Artigo de Gabriel Vilardi
- Entre patriarcado e machismo. Artigo de Filippo Riscica
- Patriarcado. Somos todos responsáveis
- O verdadeiro problema não é o patriarcado, mas o culto à força do qual somos escravos. Artigo de Vito Mancuso
- Jesus e o masculino. Artigo de Cristina Arcidiacono
- Mulheres israelenses: “Estupradas, espancadas. E o mundo fica calado"
- Giulia e a morte que mora entre nós. Artigo de Sarantis Thanopulos
- A “longa duração” do machismo. Artigo de Anita Prati
- “A violência? Das cinzas do patriarcado um monstro de duas cabeças: narcisismo e depressão”. Entrevista com Massimo Recalcati
- “Liberdade feminina, um valor para todos”. Entrevista com Lucia Vantini
- Não existem os homens progressistas. Artigo de Francesco Piccolo
- Visível e Invisível: a complexidade em torno da violência e acolhimento das mulheres. Entrevista especial com Amanda Lagreca
- “Se ele sente ciúmes, me ama”. Quando a violência nasce da linguagem
- Irã. Quando os aiatolás têm pavor de nós, mulheres. Artigo de Dacia Maraini
- Irã: Mulheres, vida, liberdade
- Filhas de Hipátia, sempre. Artigo de Dacia Maraini
- Dacia Maraini: nós, mulheres, a liberdade e as violências. Hipátia, filha das estrelas
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- ''O Islã aprisiona os corpos das mulheres.'' Entrevista com Kamel Daoud
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