12 Novembro 2025
"Quantas horas de trabalho a Polícia Federal, magistrados do STF e o Procurador Geral da República não investiram para destrinchar os trâmites do golpe, desde a passeata de 'crentes com Bíblia debaixo do braço' até minutas e o Punhal Verde-Amarelo! O comando coube, em boa parte, a golpistas fardados", escreve Edelberto Behs, jornalista.
Eis o artigo.
Se fosse para escolher uma palavra-chave do ano, segundo o seu impacto cultural, como o faz o Dicionário Oxford para o idioma inglês, eu diria que no português do Brasil esse vocábulo para 2025 seria “golpe”.
Avalie o quanto se falou em golpe no país só neste ano, coletando, inclusive os acontecimentos do golpe de 8 de janeiro de 2023, porque o processo de seus cabeças transcorreu em 2025! Quantas horas de trabalho a Polícia Federal, magistrados do STF e o Procurador Geral da República não investiram para destrinchar os trâmites do golpe, desde a passeata de “crentes com Bíblia debaixo do braço” até minutas e o Punhal Verde-Amarelo! O comando coube, em boa parte, a golpistas fardados.
Só num dia em outubro recebi 25 ligações de telefone de “atendentes” do INSS cobrando prova de vida ou informando um saldo na minha conta que eu poderia resgatar. Depois teve as “atendentes” de banco, como aquela que me disseram que foi realizada uma compra descontada na minha conta; se eu a reconheço, digite 1, caso contrário é o 2, me remetendo então para um setor de segurança da instituição. Ou a “atendente” me alertando que meus pontos do cartão de crédito estavam vencendo “hoje”, para descobrir que a pressa, no caso, era o gancho da maracutaia.
O desemprego está diminuindo no país, o que é um sinal alvissareiro e mostra que a economia está em movimento. Mas será que esse pessoal que fica horas e horas ligando para algum desavisado de que mexeram na conta dele ou que deve realizar a sua prova de vida conta entre o grupo dos ocupados ou dos desempregados? No meu telefone celular tenho mais números bloqueados, umas três vezes superiores aos meus contatos. Infiro que os/as malandros/as têm tempo suficiente para ficar em casa, de bermuda e chinelos de dedo, na busca de algum trouxa para aplicar o golpe.
Mas vimos, no Brasil, golpistas muito mais sofisticados, que usam terno e gravata e tratam seus colegas de “Vossa Excelência”, que votaram a PEC da Blindagem, assim denominado pela imprensa hegemônica, mas traduzida aos seus termos reais pelo povo que foi às ruas como PEC da Bandidagem. Se aprovada, a medida rasgaria a Constituição num de suas cláusulas pétreas: todos são iguais perante a lei. Com a PEC da Blindagem, alguns seriam menos iguais perante a lei. Houve até oração do Pai Nosso!
Então, a palavra golpe, com o seu significado denotativo e conotativo, está presente na sociedade brasileira desde o término da contagem de votos na eleição presidencial de 2022. Ou até mesmo antes, como na reunião do ministério do governo passado, no dia 22 de julho de 2022, quando o chefe do Gabinete de Defesa Institucional (GSI) propôs que a virada de mesa acontecesse antes das eleições.
Depois começaram a aparecer pontas do iceberg do golpe: os acampamentos diante de quartéis, as orações a pneus, ataque à sede da Polícia Federal, a quase explosão de bomba no aeroporto da capital federal, e, por fim, a caminhada de crentes com a Bíblia no dia 8 de janeiro, que, “inocentemente, tiveram infiltrados entre eles” essas pessoas de mau caráter que arrebentaram obras de arte, plenários, vidros e portas da sede dos três Poderes. A extrema-direita tem essa capacidade de contar histórias da carochinha como se fossem fatos verídicos verificáveis.
Com a longa peça acusatória do Procurador Geral da República ao STF e o julgamento das cabeças “invisíveis” das manobras para a intervenção que não permitiria a posse do governo eleito, não teve semana que imprensa, redes sociais, manifestações não se reportassem a “golpe”. Uma parte dos políticos argumentando que o golpe era uma peça de ficção, pois não se aplica golpe sem armas, e outra parte lembrando todos os passos, desde os acampamentos, até o clímax no 8 de janeiro.
O dia 9 de janeiro ficou conhecido, na história do Brasil, como o “Dia do Fico”. O 8 de janeiro passará à história como o “Dia do Golpe Frustrado”. Pela extensão do seu uso durante este ano, mas que vem desde 2023, “golpe” poderia ser a palavra-chave no Brasil em 2025 (sem lembrar golpes do passado!).
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