23 Novembro 2015
"Liberdade e beleza, esses são os valores, em que o 'ego' não é apagado, mas, ao contrário, potencializado e afastado da busca do poder, resgatado da perversão da guerra e guiado àquele além-do-homem que, no Zaratustra de Nietzsche, é o último e mais excelso nível que a nossa espécie pode alcançar e que deveria unir todos os homens de boa vontade", escreve Eugenio Scalfari, jornalista e fundador do jornal La Repubblica, no editorial publicado no mesmo diário, 22-11-2015.
Segundo ele, na trágica situação do mundo, hoje, "há outro personagem que é fundamentar para superar essa trágica situação: o Papa Francisco. Nunca houve um papa como ele. Digo mais: um Pastor, um Profeta, um revolucionário".
Eis o texto.
Nestes dias turbulentos, todos nos fazemos muitas perguntas: por que ocorrem fatos tão horríveis, massacres de inocentes, decapitações transmitidas pela televisão, medo das pessoas, serviços secretos mobilizados, bombardeios aéreos, vigilância inutilmente reforçada, na Europa, na Bélgica, no Iraque, na Síria, na Turquia, no Egito, no Líbano, no Mali, em Bangladesh, em meio mundo, com previsões de outros tantos horrores na Itália do Jubileu?
Eu também estou profundamente chocado e preocupado, mas não surpreso, e a razão é esta: eu sei há algum tempo que a história da humanidade, desde que ela existe, é dominada pelo poder e pela guerra. O amor e a paz são dois sentimentos alternativos que, de vez em quando, interrompem os dois primeiros, mas são interrupções breves, pausas de repouso muitas vezes abaladas. Dentro de muitos de nós, o amor e a paz são sentimentos permanentes, mas o poder e a guerra sempre têm a melhor em toda a parte, em qualquer época, em qualquer país e em qualquer tempo. E o motivo é simples: nós, ao contrário de outros seres vivos, temos um "ego".
E esse "ego", assim que nasce dentro de nós, precisa ter absolutamente um território seu, conquistá-lo, defendê-lo, ampliá-lo. Precisa emergir em todos os níveis sociais e tenta fazê-lo como pode, seja pobre ou rico, de pele negra ou branca ou mulata, homem ou mulher.
Os animais, para satisfazer as suas necessidades primárias, também devem lutar para conquistar a presa, presa também eles de outros animais. Poder e guerra também são para eles instintos dominantes, mas não são conscientes disso. Nós sim, nós somos "ego" em cada instante da nossa existência, e esse é o motor que nos anima e determina o nosso destino. O Fato. Lembram-se? Os deuses olímpicos da cultura grega levavam a melhor não só sobre os homens, mas também sobre outros deuses.
Zeus sabia que devia respeitar o Fato que era muito mais do que um deus: era a lei que domina o Cosmos e, portanto, poder e guerra, a lei da natureza é essa. O antídoto não é o amor e a paz, que, como eu já disse, são intervalos breves, pausas de repouso; mas é a liberdade, a liberdade consciente. E a beleza não como ideal romântico, mas lírico e profundamente evocativo: a música, a dança, o conhecimento.
Liberdade e beleza, esses são os valores, onde o "ego" não é apagado, de fato, mas, ao contrário, potencializado e afastado da busca do poder, resgatado pela perversão da guerra e guiado para aquele além-do-homem que, no Zaratustra de Nietzsche, é o último e mais excelso nível que a nossa espécie pode alcançar e que deveria unir todos os homens de boa vontade.
(…)
Por fim, há outro personagem que é fundamentar para superar essa trágica situação: o Papa Francisco. Nunca houve um papa como ele. Digo mais: um Pastor, um Profeta, um revolucionário: em nome da sua fé e em cerca de dois bilhões de cristãos que habitam o planeta, deslocados em quase todos os continentes.
Francisco apela ao Deus único. Todas as religiões monoteístas devem se irmanar em nome do Deus único, que não é e não pode ser um Deus vingativo, mas é um Deus misericordioso e, como tal, deve ser adorado pelos fiéis dessas religiões, começando, obviamente, pelos cristãos, pelos muçulmanos, pelos judeus.
O Alcorão fala de "morte dos infiéis" e oferece aos fundamentalistas um pretexto para encobrir as suas ações criminosas com algumas passagens corânicas. Mas eles esquecem que o seu profeta Maomé, construtor da religião islâmica, colocou como primeiro ponto de referência Abraão.
No topo do Islã, portanto, está Abraão, que escutou da voz do Senhor a ordem de sacrificar o seu filho, Isaac. Essa ordem abalou o coração de Abraão profundamente, mas a sua fé o forçou à obediência: ele levou o seu filho consigo a uma colina e, ali, olhando para o céu acima dele, puxou uma faca das suas vestes para matar o filho, como lhe tinha sido ordenado por Deus.
Mas, naquele momento, a voz de Deus o deteve: "Eu queria ver a força da tua fé, mas eu quero que Isaac viva feliz, como eu e contigo. Acaricia-o, educa-o, e vocês dois serão por mim amados e iluminados".
Esse é o Deus de Abraão e de Isaac, e é um Deus misericordioso. Por isso, são blasfemos e condenáveis os terroristas do Califado que invocam Alá e, no Seu nome, matam centenas de Isaac, filho de Abraão e amado por Allah Akbar. O único Deus, que os judeus chamam de Javé ou Elohim, e os cristãos chamam de Pai.
É isso que Francisco prega, e esse é o tema do Jubileu da Misericórdia. A sua palavra, em um momento como este, é dirigida especialmente aos islâmicos, para que reconheçam o seu Deus misericordioso, que é o mesmo que todas as religiões monoteístas deveriam venerar.