19 Outubro 2015
O fato de um menino antecipar os pastores, dando a comunhão aos pais divorciados, não é uma novidade. Na Bíblia, muitas vezes são os "filhos menores" que veem mais longe, e não é a primeira vez que um menino ensina no templo aos doutores da lei.
A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, leigo casado, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.
O artigo foi publicado no seu blog Come Se Non, 15-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
A história, publicada nessa quinta-feira, do menino que, no momento da sua primeira comunhão, partiu a partícula para levar um fragmento para o pai e a mãe "divorciados recasados" parece ter "tocado" e "comovido" a assembleia sinodal.
Lembrando bem, outra história, há um ano, por sua vez, tinha "marcado" a reunião dos bispos. Também naquele caso, falava-se de um menino, mas que coincidia com o cardeal Schönborn, enquanto ele contava, confessando-se perante os irmãos bispos, a sua história de "filho" de pais divorciados recasados.
É evidente que as emoções são um canal formidável de orientação e de convicção. Mas também é evidente que uma coisa é ser tocado por uma história biográfica, outra é deliberar sobre uma possibilidade geral de "superação" da proibição de comunhão eucarística.
Para valorizar plenamente esse episódio, eu acredito que devemos ter em mente alguns pontos-chave:
1. O gesto do menino é "profecia eclesial". Ele já chegou aonde a Igreja ainda deve chegar. Obviamente, as estradas de um indivíduo e as de um povo não podem ser as mesmas. O que é uma linha reta direta pode se tornar uma longa série de curvas e também de retornos. Mas aquela é a meta. Os Padres sinodais foram tocadas por uma antecipação da meta, que é uma verdade sentida que ainda custamos a pensar. Mas, "com o faro", sabemos que devemos convergir lá.
2. O gesto do menino é espontâneo e inspirado. Mas a Igreja, se quiser estar à altura da própria tradição, deve combinar a "bendita espontaneidade" com a "previsão disciplinada". Ela deve ter a força de "dar palavra argumentada e pacata" a essa bela iniciativa do neófito. Será que alguns talvez terão a coragem de dizer que a primeira ação do "neocomungado" foi um pecado contra a doutrina católica sobre o matrimônio indissolúvel? Jovem menino, que recém comungou, você já foi excomungado?
3. Nunca se poderá sair da situação de "impasse" na qual a Familiaris consortio nos conduziu apenas com um "julgamento caso a caso". A solução "individual" não é uma saída. Se existe um "regulamento general" para a declaração de nulidade matrimonial – algo que não escandaliza ninguém – não se vê por que não pode existir um regulamento geral para a "declaração do fracasso matrimonial".
A indissolubilidade do matrimônio não significa que "ele não pode ser dissolvido", mas que "ele não deve ser dissolvido". Se, de fato, ele se dissolve, é preciso prever as formas mais adequadas para que esse fato – com toda a dor e a desordem que implica – seja reconhecido e para que, com ele, reconheçam-se formas de vida que daí surgem para todos (ex-cônjuges, novos cônjuges e filhos), e que não são redutíveis simplesmente a "adultério continuado".
4. Se os bispos poloneses – ou, mais prudentemente, aqueles que os representam no Sínodo – consideram que a Familiaris consortio é a última palavra possível sobre a disciplina de matrimônio, da qual "ne iota unum" pode ser mudado –, com essa atitude, mais do que ajudar a resolver o problema da Igreja universal, eles parecem querer parar a história da Igreja no pontificado de Karol Wojtyla. O que se pode entender do ponto de vista do orgulho nacional, mas não no plano da fé eclesial.
5. O gesto do menino, no entanto, deve ser bem compreendido. Por um lado, é fácil de dizer: ele deu a comunhão aos seus pais "irregulares". Mas não é esse o ponto decisivo. O menino "reconheceu a comunhão" que vive, apesar de tudo, com os seus pais. Esse é o ponto decisivo, sobre o qual o Sínodo ainda deverá se interrogar e, depois, se pronunciar: a questão não é "dar a comunhão aos divorciados recasados", mas "reconhecer a comunhão nas vidas daqueles que viram fracassar o seu matrimônio".
Essa é a passagem mais difícil e mais urgente. Não está em questão, acima de tudo, o "sacramento", mas a vida de comunhão. Ser comunhão é o fim do sacramento: onde já há comunhão, o sacramento já está presente, embora formalmente vetado. Nas Escrituras, Pedro também fica surpreso porque o Espírito já tinha sido dado, embora o batismo ainda não tinha sido celebrado...
6. O fato de um menino antecipar os pastores não é uma novidade. Na Bíblia, muitas vezes são os "filhos menores" que veem mais longe, e não é a primeira vez que um menino ensina no templo aos doutores da lei. Mas, mesmo no famoso conto de fadas, é um menino o único que sabe dizer que "o rei está nu".
Como o Papa Francisco repetiu tantas vezes, há muitos casos em que a Igreja tem muito a aprender com as famílias. Esse é um daqueles casos exemplares: o sacerdote que anunciava a loucura da misericórdia do Evangelho, naquela história da primeira comunhão evocada na assembleia sinodal, era justamente o menino.