À escuta da família. Artigo de Enzo Bianchi

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10 Outubro 2015

Em vista do Sínodo dos bispos sobre a família, foi publicado na França um importante livro com as contribuições de 36 teólogos consultados pelo episcopado francês. O livro foi traduzido ao italiano pelas Edizioni Qiqajon, intitulado La famiglia tra sfide e prospettive [A família entre desafios e perspectivas] com um amplo posfácio do prior de Bose, Enzo Bianchi.

Um trecho do posfácio foi publicado no blog Sperare per Tutti, 07-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O anúncio do matrimônio cristão é claro e exigente, porque, na relação entre homem e mulher, que vivem uma história de amor, que estão ligados na aliança da palavra dada, está significada a aliança fiel entre Deus e o seu povo; mas é preciso manter viva a consciência de que nós nunca somos capazes de manifestar plenamente a fé de Deus, que é fiel mesmo que o seu povo seja sempre infiel.

Nós, cristãos, devemos comunicar essa mensagem exigente pondo-nos de joelhos e dizendo, humildemente, que é uma palavra do Senhor, não nossa, uma palavra que anunciamos sem presunção nem arrogância, sabendo que viver o matrimônio na fidelidade e no amor renovado é uma obra árdua, difícil, fatigante, impossível sem a ajuda da graça de Deus e, em todo o caso, nunca vivida plenamente, mas sempre contrariada por misérias, fraquezas e por aquele egoísmo que nos habita até a morte. (...)

Esse anúncio evangélico certamente não pode ser mudado pela Igreja, embora escandalize não só o mundo, mas também os próprios cristãos, como demonstra a reação dos discípulos às palavras de Jesus: "Se a situação do homem com a mulher é assim, então é melhor não se casar" (Mt 19, 10).

Mas, diante dessa clara vontade de Jesus, a Igreja, justamente ao anunciá-la em verdade, sem mudar a doutrina, deve ter a coragem de expressá-la com palavras novas, compreendendo sempre melhor tal anúncio.

Como afirmava o Papa João XXIII, referindo-se à tarefa que aguardava pelo Concílio: "Não é o Evangelho que muda. Somos nós que começamos a compreendê-lo melhor" (24 de maio de 1963).

Por isso, na convicção de que a forma e a identidade da família, muito diversificada nas diversas sociedades e culturas, mudada várias vezes ao longo dos séculos, no nosso Ocidente, conheceu profundas e rápidas mudanças nas últimas décadas, hoje, nós, Igreja, devemos nos pôr à escuta das famílias ou, melhor, dos homens e das mulheres do nosso tempo, que vivem a história do matrimônio de um modo novo em relação ao passado.

A Igreja deve olhar na cara dos homens e das mulheres de hoje, das suas fragilidades e fraquezas, e não só do seu desejo de família, como dizem várias vezes os documentos sinodais, mas também dos medos e das incertezas a respeito da família. Só a partir de uma escuta atenta, amorosa, não tendenciosa e não presunçosa do atual esforço para construir e viver a família é que poderá nascer um olhar sobre ela e sobre as suas vicissitudes marcado pela alegre bem-aventurança, mas às vezes também por sofrimento e morte.

Não se esqueça, além disso, que o juízo sobre a realidade matrimonial é representado pelas palavras radicais de Jesus: "Todo aquele que olha para uma mulher e deseja possuí-la, já cometeu adultério com ela no coração" (Mt 5, 28). São palavras que interrogam a todos: quem não cometeu esse pecado?

Nas histórias de amor, o caminho é acidentado, e também para os fiéis pode acontecer a contradição da aliança nupcial. Também pode acontecer a separação, que às vezes até se impõe e certamente não é um pecado nem uma culpa, como o Papa Francisco recordou recentemente.

Sim, hoje, muitos cristãos se encontram nessa situação de dilaceração, e a sua presença deve interrogar toda a Igreja.