Terena é baleado durante ataque de pistoleiros à Terra Indígena Cachoeirinha, em Miranda (MS)

Revista ihu on-line

SUS por um fio. De sistema público e universal de saúde a simples negócio

Edição: 491

Leia mais

A volta do fascismo e a intolerância como fundamento político

Edição: 490

Leia mais

Maria de Magdala. Apóstola dos Apóstolos

Edição: 489

Leia mais

Mais Lidos

  • Dom Hélder Câmara e Dom Luciano Mendes de Almeida: paladinos dos pobres e da justiça

    LER MAIS
  • ‘Governo Temer é profundamente antinacional. É pior que 64’. Entrevista com Wanderley Guilherm

    LER MAIS
  • Ri, palhaço

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

01 Junho 2015

Jolinel Leôncio Terena, seu irmão Josimar e mais alguns indígenas trabalhavam em um roçado nesta sexta-feira, 29, dentro dos limites da Terra Indígena Cachoeirinha, quando foram surpreendidos a tiros por indivíduos que estavam dentro de uma caminhonete modelo Hilux, de cor branca. Jolinel Leôncio foi baleado na parte lateral do corpo. Os indígenas estavam nas redondezas da aldeia Mãe Terra, às margens da Rodovia MS 488, que liga a comunidade ao município de Miranda, Mato Grosso do Sul. Jolinel foi removido para um hospital de Campo Grande, pois o projétil permaneceu alojado em seu corpo.

A informação é do CIMI - Mato Grosso do Sul, 29-05-2015.

Os sobreviventes identificaram o carro como pertencente a um fazendeiro da região conhecido como Amaral, alvo de mais de uma dúzia de denúncias, que partiram do Conselho de Lideranças Terena, por ameaças de morte contra Lindomar Terena e intimidações contra o povo. Nada foi feito para impedi-lo por parte das autoridades. Cerca de 120 indígenas se dirigiram para Miranda exigindo que os policiais fizessem o boletim de ocorrência. O procedimento deveria ser padrão, mas o delegado, até então, relutava em fazer. Autoridades fizeram contato com o delegado para entender os motivos da negativa em registrar o boletim.

O atentado ocorreu por volta das 17h30. Os vários disparos zuniram entre os indígenas. Joliel acabou atingido no seu flanco esquerdo. Surpreendido com o ferimento, tentou correr, mas após avançar aproximadamente cinco metros tombou. Josimar correu para acudir o irmão em meio aos tiros que pipocavam sobre os Terena. No momento em que Josimar alcançou o irmão, o veículo fugiu em alta velocidade.

Josimar desabafa: “Estávamos na roça, cuidando de nossa plantação, e ele simplesmente atirou no meu irmão, sem motivo algum, ele sempre faz isso. Este fazendeiro e seus jagunços, com o mesmo carro. Sabemos quem ele é, já avisamos as autoridades, eles atiram sempre, passam sempre por aqui, é todo o dia”. Os indígenas afirmam que o alvo poderia ser Lindomar Terena, que estava perto do local do atentado. Suspeitam disso porque Lindomar é comumente ameaçado de morte por Amaral.

Os indígenas buscaram a delegacia de polícia para registrar boletim de ocorrência, porém denunciam que os policias relutaram para fazê-lo. Lideranças Terena têm registrado boletins junto ao Ministério Público Federal (MPF), por considerar que a Polícia Federal tem acobertado os ataques dos fazendeiros, em especial no que diz respeito a Amaral. Em um caso mais emblemático, uma liderança, ao prestar queixa na delegacia, teria escutado diretamente do delegado a seguinte frase: “Você está vivo, contente-se e deixe de reclamar”. Outros indígenas de Mãe Terra afirmam igualmente que a mesma Hilux branca passa diariamente pela frente da terra indígena com sujeitos fazendo ameaças, atirando.

Fazendeiro protegido

Logo após o atentado, rapidamente a polícia se postou em formação de defesa ao redor da casa de Amaral, em Miranda, cercando a propriedade para que eventualmente não pudesse sofrer possíveis reações da comunidade indígena. Porém, ao longo de todo o período em que diversas denúncias foram encaminhadas, não houve desta mesma polícia nenhuma postura mais incisiva para proteger a vida dos Terena.

No último mês de abril, enquanto ocorria o Acampamento Terra Livre (ATL), no âmbito da Mobilização Nacional Indígena, um outro Terena sofreu igual atentado. O indígena dirigia um trator e foi interceptado por um veículo dentro da própria aldeia. Vários disparos foram desferidos contra o Terena.

Inconformados, os Terena relatam que não irão mais esperar pelo governo federal. Apontam que é justamente a demora na demarcação de seus territórios que abre espaço para atentados covardes como o sofrido por Jolinel. Lindomar Terena, uma das principais lideranças deste povo, está sob risco de morte sem que nenhuma providência seja tomada por parte das autoridades.

Mãe Terra é uma retomada que já tem dez anos. Aqui tem escola, tem roça, tem vida. Aqui, desde que retomamos, a vida ressurgiu e com ela a saúde de nosso povo. Não assistiremos nosso povo ser massacrado e atacado. Se for por direito a viver uma vida digna e em paz, lutaremos e retomaremos nossos territórios. Não daremos um passo atrás”, diz Lindomar Terena. As lideranças Terena cobram providências das autoridades e anunciam que se nada for feito terão que buscar pelas próprias mãos a paz e o Bem Viver para o seu povo. Inclusive a Justiça, que já caducou por aquelas bandas.