Dom Erwin Kräutler denuncia uma campanha anti-indígena do Estado brasileiro

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Por: André | 20 Abril 2015

A luta de dom Erwin Kräutler (foto) para defender os povos indígenas é uma constante na sua vida como missionário na prelazia do Xingu durante 50 anos, os últimos 35 como bispo. Presidente do CIMI (Conselho Indigenista Missionário) durante 16 anos, sua voz profética ressoou em todos os rincões deste imenso país chamado Brasil e daí foi lançada para todo o mundo.

 
Fonte: http://bit.ly/1HBwrLx  

A reportagem é de Luis Miguel Modino e publicada por Religión Digital, 17-04-2015. A tradução é de André Langer.

As consequências desse compromisso profético e de sua paixão pelas causas amazônicas são as constantes ameaças de morte que sofre há vários anos e que já levaram à morte alguns de seus colaboradores mais diretos, sendo a mais conhecida delas a Irmã Dorothy Stang, assassinada em fevereiro de 2005.

O compromisso e conhecimento de dom Kräutler no que se refere aos povos indígenas e à preservação da Amazônia é tão grande que ele é um dos peritos consultados pelo Papa Francisco para a elaboração da sua próxima encíclica sobre a ecologia.

Uma vez mais, na entrevista coletiva do segundo dia da 53ª Assembleia Geral da CNBB, o bispo de Xingu denunciou a situação de sofrimento pela qual a região amazônica e seus habitantes estão passando, chegando a afirmar a existência de uma campanha anti-indígena por parte do Estado brasileiro, que nos últimos anos praticamente não demarcou nenhuma terra indígena.

Em sua trajetória como presidente do CIMI recordou as mudanças que ocorreram ao longo dos últimos 30 anos na relação entre os povos indígenas e o Estado brasileiro, fazendo memória da situação de aliança na defesa dos direitos dos povos indígenas nos anos 1980, o que colocou o Brasil em primeiro lugar no que diz respeito à defesa da causa indígena e que foi concretizado em uma constituição que defende os direitos dos povos indígenas e em uma disposição que promulgava a demarcação das terras indígenas em um período de cinco anos.

Mas hoje a realidade é totalmente diferente, fruto do surgimento do que denomina de forças organizadas anti-indigenas, que estão lutando contra os enunciados da Constituição, que querem mudar a partir da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215, que defende que a demarcação de terras indígenas deve ser aprovada pelo poder legislativo, representado cada vez mais por defensores dos interesses dos fazendeiros, inimigos declarados dos povos indígenas e financiadores das campanhas políticas dos deputados e senadores que fazem leis em benefício de seus mecenas.

Tudo isso, na opinião de dom Kräutler, coloca em xeque a Constituição brasileira e a reputação do país em termos de defesa dos povos indígenas dentro do concerto internacional. De fato, a não demarcação dos territórios indígenas deixa abertas as portas para qualquer tipo de invasão e não vai acabar com a violência sofrida pelos povos indígenas brasileiros por parte daqueles que pretendem expulsá-los de suas terras ancestrais, fazendo com que não tenham mais como sobreviver.

O bispo denuncia que a Amazônia está sendo mais cobiçada do que nunca, por conta dos recursos minerais, madeireiros, agrícolas e energéticos, em função do que é chamada de “interesse nacional”, embora dom Erwin Kräutler defenda que esse interesse é, na verdade, de poucos em detrimento dos povos que ali vivem. Denuncia que os projetos que dizem respeito à Amazônia são decididos em Brasília, tornando-se essas decisões inconstitucionais, pois a Carta Magna assinala que os povos indígenas devem ser consultados sobre os projetos que interferem em suas áreas territoriais.

Por último, assinala que é obrigação da Igreja colocar o dedo na ferida e defender os direitos humanos e a dignidade da multidão de desalojados em consequência da construção do megaprojeto de Belo Monte, na cidade de Altamira, que vai transformar a vida de boa parte da população do interior do Pará e que desde o início encontrou uma forte oposição dos movimentos sociais e da própria Igreja católica.