A lição de Romero compreendida por Francisco

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14 Janeiro 2015

Nos dias da dor, o anúncio de Romero reabre esperança, finalmente "mártir da fé", bispo morto no altar por um capitão comprometido a defender "os valores do Ocidente cristão".

A reportagem é de Maurizio Chierici, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 13-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Os Estados Unidos de Reagan acolhem o assassino com um asilo político que o esconde para sempre. Voltávamos comovidos dos encontros com Romero, pequeno purpurado do pequeno El Salvador queimado pela guerra civil: 75 mil mortos em dois milhões de pessoas. Jornais e TV insultavam as suas homilias na catedral sufocada por uma multidão misturada de modo estranho: agricultores descalços, senhores de elegância melancólica, apegados às notícia que só o bispo tinha a coragem de dar.

"O corpo do estudante Ramón Contreras foi encontrado em um aterro em torno de Aguilares. O nosso escritório legal indica como responsáveis o tenente Alarcón e o brigadeiro López..." Listas, todos os domingos. Contamos isso sem suscitar o desprezo que aquece os leitores dos nossos dias confusos.

Até o Vaticano não se abalava. Romero suspirava nos dois quartos de um seminário transformado em refúgio para os refugiados em fuga da guerra. "Roma me abandonou..." O núncio apostólico Kadar também sorria ao lado dos militares nos dias dos feriados nacionais. E Romero balançava a cabeça: "Não posso me misturar até que tenham respondido a tantas perguntas".

Ele contava sobre o desespero do povo, a arrogância dos altos uniformes: enraivecidos por causa das homilias que o Orientación, jornal semanal da diocese, distribuía aos fiéis. Um boato na noite, redação destruída. Fomos bater na porta dos dominicanos, onde morava o padre espanhol que dirigia o jornal. A luz fraca do corredor empalidecia o seu tremor. "Não o conhecemos, não morava aqui..." Aterrorizados sabe-se lá por qual ameaças.

E Romero se entristecia: "Medo que queima a sinceridade e derruba as palavras". Ele não queria se render à violência que perseguia os pobres. "Quando perguntei a um ministro quem tinha assassinado Rutilio Grande, confessor do qual conhecia todas as dobras do coração, ele escapou enganando: 'Era comunista e nós, bons católicos, não suportamos quem ofende a religião'. Comunista, Rutilio?". A paciência dos militares estava acabando, mas afastando tentações distantes da Opus Dei. O primaz não se rendia na defesa dos sem-nada.

Ele informava ao Vaticano sobre os sacerdotes mortos, jesuítas ameaçados: assassinaram-nos depois do seu desaparecimento. Nenhuma resposta. Um dia, no aeroporto de El Salvador, acolheu-nos a foto de Romero ao lado de João Paulo II. Ele deve estar contente, pensamos. Não estava. "Venha, e eu lhe explico..."

Quando o bispo entregou os documentos sobre os líderes cristãos sequestrados e torturados, o papa o deteve: "Jogue fora as cartas". E Romero partiu novamente com a impressão de ter sido recebido "apenas para a fotografia".

Atiraram nele ao rezar a missa, no dia 24 de março de 1980. Em todos os cantos das Américas, nas camisetas dos jovens, na devoção popular, ele logo se tornou santo. No entanto, a causa despertava embaraços misteriosos. Foi aberta 14 anos depois e somente em 1997 foi confiada ao postulador (bispo Vincenzo Paglia), que deve ter encontrado sabe-se lá quais dificuldades para demonstrar as "virtudes heroicas": levou o dobro do tempo que consagraria Escrivá de Balaguer, fundador da Opus Dei e de amizades franquistas. Paulo VI não suportava as sombras que o envolviam; nunca quis recebê-lo.

Vozes do El Salvador contam sobre "três cardeais" que freavam o processo de Romero. Mas, do fim do mundo, chega Francisco e, em março da próxima Quaresma, o pequeno bispo se aproxima do altar.