07 Janeiro 2015
Francisco não olha apenas para o mundo eclesiástico. Ele desenha a geografia de uma Igreja amiga de muitos povos (pequenos e grandes, católicos ou não). As periferias católicas estão representadas e, de alguma forma, entram no "centro".
A opinião é do historiador italiano Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio e ex-ministro italiano, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 05-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
O Papa Francisco não está em xeque, como algumas coletas de assinaturas em seu favor levam a acreditar. Os novos cardeais são uma iniciativa forte: indicam os bispos que ele quer como seus conselheiros, aos quais, dentre outras coisas, é confiada a escolha do seu sucessor.
Todos pastores, exceto um curial. Mas o papa não ignora a Cúria. Ele lhe dedicou um grave discurso antes do Natal, pedindo uma reforma espiritual da cúpula para dar alma à institucional, a ser discutida no próximo consistório. Ele quer mudar a Cúria: dois anos de papado o confirmam naquele que foi o pedido dos seus eleitores. Para a Cúria, é tempo de reformas mais do que de nomeações.
A "caridade pastoral" é a chave de todas as nomeações de Francisco. Vê-se isso também nos cardeais com mais de 80 anos escolhidos por ele. Ele não olhou para as carreiras: um colombiano de 95 anos que foi padre conciliar no Vaticano II e um bispo moçambicano que reconstruiu a Igreja depois da revolução. Há também um ex-núncio, Rauber, conhecido por uma entrevista crítica sobre as nomeações de Bento XVI.
Francisco, acima de tudo, chama as periferias para participar. Com 14 cardeais bispos, fortalece o laço com mundos distantes, inserindo-os nos processos colegiais. Há muito tempo acabaram as nunciaturas "cardinalícias", cujos titulares recebiam automaticamente a púrpura. Agora caem as dioceses "cardinalícias". Os cardeais são a voz de um povo no concerto da Igreja, não mais os titulares de uma sede histórica.
Faltava uma voz portuguesa, e o papa escolheu Clemente, de Lisboa, herdeiro do cardeal Policarpo, conhecido pelo seu espírito aberto. Com a nomeação do arcebispo de Hanói, o Vietnã mantém a sua voz no Colégio Cardinalício. O fervoroso povo católico de Cabo Verde, composto por muitos migrantes, encontra espaço entre os cardeais. As nomeações na Ásia e na Oceania expressam a atenção do papa à parte menos católica do globo.
Francisco não olha apenas para o mundo eclesiástico. Ele desenha a geografia de uma Igreja amiga de muitos povos (pequenos e grandes, católicos ou não). As periferias católicas estão representadas e, de alguma forma, entram no "centro".
O papa também olha para a Itália. Não redimensiona o catolicismo italiano, como alguns estão dizendo. Ao contrário, quer redespertá-lo. Vai lhe dedicar tempo com a próxima visita a uma cidade complexa como Nápoles, à qual se seguirá Turim.
O papa segue a sua própria vida: não está ligado aos mecanismos tradicionais de promoção cardinalícia, desequilibrados em favor do Norte. Nomeia dois cardeais na Itália (é o único país): Francesco Montenegro, bispo de Lampedusa e dos migrantes, Edoardo Menichelli, bispo pastoral e colaborador do cardeal Silvestrini.
Depois de uma fase de passagem, Francisco amadureceu uma liderança na Itália. Vê-se isso com o discurso do dia 31 de dezembro sobre Roma, extensível à Itália: "Quando uma sociedade ignora os pobres (…) essa sociedade se empobrece até a miséria, perde a liberdade".
Ele perguntou: "Somos apagados, insípidos, hostis, desconfiados, irrelevantes e cansados?". É uma pergunta também para os católicos italianos. É preciso colocar novamente no centro os pobres em uma Igreja "pastoral". Com dois novos cardeais-pastores, o papa repropõe a "conversão pastoral".
Resistências existem, expressas e não expressas, na Cúria e na Itália. Francisco sabe disso e não faz guerras. Ele não teme o debate, mesmo que não goste quando se usa a imprensa para lutas eclesiais. Ele indicou o seu programa: a Evangelii gaudium. Nisso, ele segue em frente. E escolheu novos companheiros de viagem.