02 Dezembro 2014
O Vaticano está considerando convocar uma reunião de líderes religiosos para sensibilizar as pessoas sobre o estado atual do clima e sobre as desigualdades sociais resultantes de um planeta aquecido e tecnologizado, à frente de duas importantes reuniões das Nações Unidas sobre clima e sustentabilidade já marcadas para 2015.
A reportagem é de Brian Roewe, publicada no sítio National Catholic Reporter, 25-11-2014. A tradução é de Claudia Sbardelotto.
A notícia veio no final de um discurso do bispo Marcelo Sánchez Sorondo, que no dia 10 de novembro, em Londres, deu a Palestra Anual Papa Paulo VI para a Agência Católica para o Desenvolvimento Exterior (CAFOD) - a agência oficial de caridade da Igreja Católica na Inglaterra e País de Gales.
Sorondo, chanceler da Pontifícia Academia das Ciências, disse que "2015 pode ser um ano decisivo na história", já que a ONU tem uma "oportunidade única" em dois eventos separados para estabelecer um curso sustentável para a economia global: em setembro, acontecerá o encontro "Objetivos de Desenvolvimento Sustentável", e em dezembro, as negociações sobre o clima em Paris.
"O problema da mudança climática tornou-se um grande problema social e moral, e as mentalidades só podem ser alteradas por razões morais e religiosas", disse ele.
A partir dessa posição, o bispo disse que o meio acadêmico deu o seu apoio ao Papa Francisco "para publicar uma encíclica ou outro documento importante sobre o clima e a inclusão social para influenciar as decisões cruciais do próximo ano.
"Na verdade, a ideia é convocar uma reunião com os líderes religiosos das principais religiões para tornar todas as pessoas cientes do estado do nosso clima e da tragédia da exclusão social a partir da mensagem bíblica de que o homem é o mordomo da natureza e de seu desenvolvimento humano e ambiental de acordo com o seu potencial e não contra ela, assim como Paulo IV tinha em mente", disse Sorondo.
Em janeiro, o Vaticano confirmou que Francisco estava trabalhando em uma encíclica focada na ecologia e na "ecologia do homem". Em seu vôo de volta de sua visita à Coreia do Sul, em agosto, o papa disse aos jornalistas que, pouco antes de sua viagem, ele havia recebido um primeiro rascunho da encíclica do cardeal Peter Turkson, presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz. Relatórios fora de Roma antecipam que a encíclica virá em algum momento na primeira metade do novo ano.
A conversação da ONU de 2015 sobre o clima, em Paris, oficialmente conhecida como a 21ª Conferência das Partes, têm como objetivo a adoção de um novo acordo internacional sobre o clima, a entrar em vigor em 2020. Quando o Protocolo de Kyoto expirou no final de 2012, também expirou o único acordo internacional vinculante para a regulamentação de emissões de carbono; as negociações sobre o clima em Doha daquele ano estendeu os compromissos de Kyoto até 2020, apesar de várias nações se esquivarem do acordo. Esta semana, as negociações climáticas foram abertas em Lima, Peru.
Caso a conferência religiosa ocorrer, ela não vai ser a única no calendário em 2015. Em sua encíclica patriarcal, na abertura do novo ano eclesiástico, em setembro, o Patriarca Ecumênico Bartolomeu anunciou planos para uma cúpula ambiental em junho próximo, para se concentrar sobre o tema "Teologia, Ecologia e o Verbo: uma conversa sobre o meio ambiente, a literatura e as artes".
Na palestra CAFOD, Sorondo discutiu as conexões entre o aquecimento do clima, uma economia global construída sobre combustíveis fósseis e as divisões sociais que ambos podem causar.
"Hoje existe evidência científica sólida de que o clima global está mudando e que a atividade humana com base na utilização de materiais fósseis contribui de forma decisiva para esta tendência. Juntamente com uma economia baseada no lucro e o papel que os jogos financeiros desempenham a fim de lucrar com o dinheiro em si, sem uma orientação clara para a produção de bens, isto leva à exclusão social e a novas formas de escravidão, como o trabalho forçado, a prostituição, o tráfico de órgãos e o uso de drogas como forma de corrupção", disse ele.
O bispo disse que os desenvolvimentos das capacidades tecnológicas nos últimos 200 anos "levaram o homem a uma encruzilhada. ... Esses avanços remodelaram a economia mundial de tal forma que ela é cada vez mais urbana e globalmente conectada, mas também cada vez mais desigual".
Citando Francisco na Evangelii Gaudium, ele descreveu o "efeito bumerangue" da ação humana, que não leva em consideração a natureza, sobre os seres humanos, na medida em que cria uma "globalização da indiferença" e uma "economia de exclusão".
"As forças de mercado por si só, sem nenhuma ética e ação coletiva, não podem resolver as crises inter-relacionadas de pobreza, exclusão e do meio ambiente", disse ele, ressaltando que medir a atividade econômica somente pelo produto interno bruto "não leva em conta a associada degradação da Terra, nem as desigualdades injustas entre os países e dentro de cada país".
Quanto às alterações climáticas, Sorondo afirmou o consenso científico, mais recentemente, o mais recente relatório da ONU, de que o aquecimento do planeta se deve à atividade humana, que está ocorrendo e que está afetando dde forma desproporcional os pobres e os jovens.
"O desafio da mudança climática se tornou não só econômico, político ou social. É também uma questão de moral, religiosa e de valores como a justiça e a inclusão social, a obrigação de solidariedade para com as gerações futuras e a obrigação moral de cuidar da terra, ou seja, a Criação, que é o nosso habitat", disse ele.
Sorondo pediu a adoção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU - esperados para serem construídos sobre o progresso dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio adotados no ano 2000 - para continuar a combater a pobreza extrema e as desigualdades sociais. Embora os meios tecnológicos e operacionais para que isso aconteça existam, disse ele, o maior desafio "pode estar na esfera dos valores humanos", onde os avanços econômicos levaram a uma ampliação da diferença de renda e redução da igualdade de oportunidades.
"Uma ecologia humana saudável, em termos de virtudes éticas, contribui para a realização de um ambiente sustentável e equilibrado. Hoje, precisamos estabelecer uma relação mutuamente benéfica: a economia precisa estar imbuída de valores verdadeiros, e o respeito pela Criação de Deus deve promover a dignidade humana e o seu bem-estar", disse ele.