Por: Cesar Sanson | 12 Novembro 2014
Bruno Cava Rodrigues
Existem seis métodos de pesquisa-intervenção em ciências sociais:
1) Doutrinário. Elabora-se uma doutrina, seus limites e quadros de referência são demarcados claramente, e com ela se trava a disputa com outras escolas doutrinárias, em busca de reconhecimento, status e verbas acadêmicas. Tendência ultraidentitária e carreirista. Pensa de dentro pra dentro.
2) Ideológico. Elabora-se uma ideologia, um conjunto de princípios, programas e um sistema de filiações e autoridade, e com ela se vai à sociedade para conscientizar o máximo de pessoas e defender sua pureza. Tendência sectária de grupelho. Pensa de dentro pra fora.
3) Positivista. O método não atribui a qualidade de sujeito aos atores pesquisados em campo, que são integrados como objetos do conhecimento segundo as várias matrizes sociológica, econômica, jurídica etc. Tendência reducionista ou universalista (ainda que oculta). Pensa de fora pra dentro.
4) Relativista. O método atribui a qualidade de sujeito aos atores pesquisados, mas somente dentro do contexto, campo, cultura, tempo histórico do próprio sujeito. O sujeito da pesquisa detém vantagem epistêmica para integrar os vários contextos em seus valores próprios. Tendência universalista de 2ª ordem ou culturalista. Pensa de um dentro que comporta todos os foras.
5) Materialista. O conhecimento só se produz implicado nas lutas, tendências ou práticas, segundo uma teoria da ação. O sujeito se constitui nos antagonismos reais da sociedade. Tendência pragmática. Pensa dentro e contra.
6) Perspectivista. O método instaura um ponto de vista que constitui os sujeitos, que por sua vez elaboram outros pontos de vista com direito próprio. As perspectivas geram interferências mútuas e cooptações laterais, que simetrizam a relação entre subjetividades. Tendência dispersiva. Não de dentro nem de fora, é o pensamento do Fora.
Os métodos não existem em forma pura e se hibridizam.
Maurício Abdalla
CULPA DAS COTAS?
Que ninguém se iluda: o nível da universidade está caindo. E não é algo tão novo.
Porém, que ninguém também caia no erro de relacionar isso às cotas sociais. Seria uma atribuição falaciosa de causalidade, que relaciona um problema a uma causa sem reflexão sobre o nexo causal entre os dois. Nem sequer relação de sucessão temporal existe, pois o problema real antecede a adoção de cotas.
Deixo aqui algumas causas desse declínio, que venho percebendo ao longo de minha vivência na UFES (como professor) desde 1995. Nenhuma delas está relacionada às cotas e, na verdade, todas as antecedem. Espalham-se entre alunos de diferentes extratos sociais e oriundos de escola pública ou privada:
- Dificuldade (por preguiça ou qualquer outra razão) de ler os textos solicitados pelo professor para a aula;
- Estudar textos teóricos em frente à TV, com música alta, com interrupção frequente, redes sociais ativadas e com falta de concentração;
- Faltar aulas frequentemente para ir a bares, bater papo nos CAs ou nas cantinas ou por mera falta de vontade (ás vezes sob alegação de que "a aula é um saco");
- Copiar trabalhos de livros ou da internet, ou encomendar a terceiros seguindo inúmeros anúncios espalhados pela universidade oferecendo a terceirização de trabalhos, monografias e até dissertações;
- Gritar em grupos (essa é a nova forma de conversar) em corredores onde estão ocorrendo aulas ou próximo a sala de professores (que tentam estudar para melhorar o conteúdo das aulas ou fazer suas pesquisas);
- Conversar alto nas bibliotecas;
- Não saber o básico do português e usar ortografia de internet nas provas e trabalhos;
- Ficar conversando ou olhando vídeos pelos celulares e iPhones durante as aulas;
- Ter sido formado pela informação fragmentada e superficial dos meios de comunicação, apresentando dificuldade para o raciocínio complexo e sistemático;
- Estar na universidade apenas como uma continuidade da educação básica, sem nenhum interesse real nos conteúdos e pensando no diploma que lhe dará uma profissão;
- Falta de intimidade com a expressão de ideias pela escrita (para expressar ou interpretar);
- Escolher a sala de aula para bater-papo, ao invés dos espaços de vivência da universidade;
- Preocupar-se mais com o próximo micareta ou show de celebridade do que com a qualidade de seu desempenho acadêmico;
- Dedicar mais tempo ao Big Brother do que à análise do mundo real; mais à revista semanal do que às pesquisas sociais; mais às informações da Internet do que aos livros; mais ao comentário ou artigo de um jornalista do que às pesquisas de anos de professores empenhados em compreender o fenômeno mais profundamente, etc..
A lista pode ter ficado incompleta, mas já por ela, podemos ver que não há nada que esteja relacionado ao extrato social do qual os alunos são oriundos ou à forma de ingresso na universidade.