25 Abril 2011
O mantra do setor nuclear de que "Fukushima não é Chernobyl" enfrenta um problema: a escala internacional de acidentes nucleares (INES), que equipara ambos os acidentes como nível 7, o máximo. O sistema, criado em 1990, não distingue que em Fukushima o vazamento foi de apenas 10% do de Chernobyl, entre outras coisas. Em apoio ao Japão, a OCDE irá propor uma mudança na escala para que Fukushima seja 7 e Chernobyl 8 e que se cumpra o mantra também no papel.
A reportagem é de Rafael Méndez e está publicada no jornal El País, 25-04-2011. A tradução é do Cepat.
O diretor-geral da Agência Nuclear da OCDE, o espanhol Luis Echávarri, visitou Tóquio na quinta e na sexta-feira da semana passada. Echavárri se reuniu com os responsáveis pela administração de Fukushima e lhes ofereceu a ajuda da OCDE para a análise de áreas contaminadas e a "avaliação do acidente junto à opinião pública", entre outras matérias.
Nessa questão, Echávarri explicou a este jornal que se pretende pedir ao Organismo Internacional para a Energia Atômica (OIEA) da ONU que modifique a escala INES. "A escala é um instrumento para informar ao público, não de gestão técnica. E se viu que há uma contradição entre dar um nível 7 a ambos os acidentes e tentar explicar que são diferentes", assinalou Echávarri. Este insistiu em que é favorável a "superar essa contradição com uma reforma" do sistema, mas que "só deveria ser feita uma vez que Fukushima esteja sob controle e sempre que não haja novos vazamentos radioativos".
Um mês após o terremoto de 11 de março, o Japão se viu obrigado a qualificar com um 7 o acidente de Fukushima, porque a escala fixa nesse nível todo acidente em que haja vazamento radioativo superior a "dezenas de milhares de terabequerels de iodo 131", o que aconteceu em Fukushima.
Ao anunciar a mudança na escala, a Agência de Segurança Nuclear japonesa (NISA) insistiu em que em Fukushima não ocorreu a explosão do reator (mas o hidrogênio), que não houve trabalhadores mortos, que a radioatividade não impedia o trabalho em toda a nuclear e que a emissão era de apenas 10%, comparado com Chernobyl. O Japão já apontou então que se a escala tivesse sido desenhada até 8, Chernobyl estaria um degrau acima de Fukushima.
A escala INES foi criada em 1990 a pedido da OCDE, que se inspirou em uma escala francesa. Como a maioria dos países nucleares pertence à OCDE, é provável que a proposta de Echávarri tenha muito apoios. O lobby nuclear está muito incomodado com a qualificação de Fukushima.
Fukushima, previsivelmente, trará outras mudanças na política nuclear japonesa. A Agência de Segurança Nuclear (NISA) do país depende do Ministério da Economia e Indústria, encarregado pela construção de novas centrais nucleares. Países como os Estados Unidos, França ou Espanha colocaram a segurança nuclear em organismos independentes do Governo. Echávarri aponta de maneira diplomática que "talvez o Japão deva que reforçar a independência em relação ao Governo".
O incipiente movimento antinuclear segue em frente: neste domingo, em Tóquio, houve uma manifestação para pedir esta reformulação da política energética.