Tragédia de Mariana: “Desdobramentos são atacados somente à medida que aparecem”. Entrevista especial com David Zee

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23 Novembro 2015

“O despejo de 62 milhões de metros cúbicos de lama no meio ambiente foi o maior acidente em termos de espalhamento e liberação instantânea de sedimentos que se tem registro na história do país”, afirma o oceanógrafo.

Foto: agazeta.redegazeta.com.br

As perguntas importantes envolvendo o rompimento da barragem da Samarco, em Mariana, e para as quais ainda não se tem respostas, são: “Por que a barragem rompeu? Foi por uma causa natural? Foi um erro de cálculo estrutural da barragem? Foi por causa de um tremor de terra? Ou foi pela falta de segurança do projeto da barragem? Temos de saber o que aconteceu para evitar futuros problemas ambientais”, afirma David Zee, em entrevista concedida à IHU On-Line por telefone.

Segundo ele, por enquanto apenas é possível perceber que “a empresa não tinha procedimentos de contingência no caso de haver um acidente. Esse é o grande problema, porque não houve nenhum preparo para atender a situação emergencial”.

De acordo com Zee, “alternativas poderiam ter sido tomadas” para evitar que a lama da barragem se espalhasse pelos rios e desaguasse no oceano. O oceanógrafo explica que “quando a barragem rompeu, as comportas foram abertas, mas se elas tivessem sido fechadas, a lama teria sido capturada pela barragem. Obviamente isso geraria um impacto muito grande na barragem, porque ela perderia o volume de água, ou seja, ao invés de água, haveria sedimento na barragem, mas a grande vantagem é que essa ação impediria que esse sedimento percorresse pelos rios até o mar”.

Ainda é cedo para prever quais serão as implicações do contato dessa lama com o oceano, mas como o “espalhamento vai ocorrer no verão, quando o mar é mais calmo (...), grande parte desse segmento será lançado contra a praia e esse é o perigo, porque justamente nessa área existe uma zona de proteção às tartarugas marinhas, do Projeto Tamar, além da questão da fauna e da flora locais, porque a partir dessa região começam a aparecer as linhas de recifes próximas ao litoral, que servem de substrato para a acomodação de muitos organismos bentônicos, que se fixam no fundo do mar”.

David Zee pontua ainda que, num caso como esse, seria “bastante prudente” ter uma “equipe técnica que analisasse a crise em dimensões maiores, e não apenas as consequências locais. Podemos notar que a cada dia que passa os desdobramentos dessa tragédia vão aumentando, e eles são atacados à medida que aparecem, quando na verdade um gabinete de crise deveria ter especialistas estudando essa tragédia numa escala maior, tanto de tempo quanto de área afetada”.

David Zee é graduado em Engenharia Civil pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, mestre em Oceanografia pela Universidade da Flórida e doutor em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

Confira a entrevista.

Foto: alerj.rj.gov.br

IHU On-Line - Qual é a probabilidade de a lama da barragem da Samarco chegar à Foz do Rio Doce no Oceano Atlântico? De que modo ela pode impactar o ecossistema marinho?

David Zee – A probabilidade é quase 100%, porque não impediram que esses sedimentos seguissem adiante. Entretanto, a grande questão diz respeito à quantidade de lama que vai chegar ao mar e à capacidade de remoção do oceano. Se o mar estiver com uma boa capacidade de remoção, o impacto será menor, mas se o mar não estiver e o volume de lama for maior, a tendência é que ela se acumule no fundo do oceano, sem falar no espalhamento de uma mancha de lama pelo litoral.

O problema é que esse espalhamento vai ocorrer no verão, quando o mar é mais calmo e as ondas são mais construtivas, como chamamos. Isso quer dizer que grande parte desse sedimento será lançado contra a praia e esse é o perigo, porque justamente nessa área existe uma zona de proteção às tartarugas marinhas, do Projeto Tamar, além da questão da fauna e da flora locais, porque a partir dessa região começam a aparecer as linhas de recifes próximas ao litoral, que servem de substrato para a acomodação de muitos organismos bentônicos, que se fixam no fundo do mar. Esses são organismos muito importantes da cadeia alimentar, porque são a base de alimentação dos peixes e organismos superiores. Então, a tendência é que essa lama se deposite no fundo do mar e ocasione um sufocamento desses organismos que existem ao longo do litoral.

IHU On-Line – O senhor disse que não foi feito nada para impedir que a lama se espalhasse para os rios. Algum tipo de procedimento poderia ter sido feito para evitar o escoamento da lama?

David Zee – Sem dúvida, algumas alternativas poderiam ter sido tomadas. Quando a barragem rompeu, as comportas foram abertas, mas se elas tivessem sido fechadas, a lama teria sido capturada pela barragem. Obviamente isso geraria um impacto muito grande na barragem, porque ela perderia o volume de água, ou seja, ao invés de água, haveria sedimento na barragem, mas a grande vantagem é que essa ação impediria que esse sedimento percorresse pelos rios até o mar.

Ainda é possível fazer isso, basta fechar a comporta e regular a vazão. Se fizessem isso, seria possível ter um controle melhor de quanto sedimento seria destinado até o mar. Em contrapartida, se perderia o potencial de produção hídrica ou de armazenamento de água dessas barragens, considerando que uma delas é da própria Samarco. Então, talvez por falta de perspectiva ou por falta de noção do que poderia acontecer, abriram as comportas da barragem para deixar a lama escorrer para a frente. Mas o propósito deveria ser exatamente o contrário. Imagino que a empresa terá mais prejuízos por conta do impacto ambiental do que se tivesse de pagar os prejuízos de ter uma barragem inutilizada. Logo, nota-se que a empresa não tinha procedimentos de contingência no caso de haver um acidente. Esse é o grande problema, porque não houve nenhum preparo para atender essa situação emergencial.

“O despejo de 62 milhões de metros cúbicos de lama no meio ambiente foi o maior acidente em termos de espalhamento e liberação instantânea de sedimentos que se tem registro na história do país

IHU On-Line - A ministra do Meio Ambiente declarou que não há risco de a lama impactar o Arquipélago de Abrolhos. O senhor faz a mesma avaliação? Apesar disso, quais os possíveis impactos na região?

David Zee – O risco de a lama chegar a Abrolhos é menor, mas isso não quer dizer que não temos de considerar essas questões quando se analisa uma situação de crise. O despejo de 62 milhões de metros cúbicos de lama no meio ambiente foi o maior acidente em termos de espalhamento e liberação instantânea de sedimentos que se tem registro na história do país. Abrolhos fica a 250 quilômetros da foz do Rio Doce, de modo que provavelmente o impacto ali será menor, mas não podemos analisar o impacto que isso causaria somente se chegasse ao Arquipélago de Abrolhos, e sim o impacto que poderá causar no Parque Nacional Marinho de Abrolhos, que poderá ser afetado.

IHU On-Line – Já é possível estimar quais serão as implicações ambientais se a lama chegar ao litoral?

David Zee – Ainda não, porque nós não temos uma experiência anterior com a redisponibilização desse tipo de material no meio ambiente, e por isso é necessário fazer monitoramentos mais precisos e entender como esse material irá reagir no meio ambiente. Para podermos fazer uma análise mais efetiva, é preciso fazer um acompanhamento laboratorial, mas para isso é preciso uma equipe técnica que entenda de oceanografia, hidrografia etc. Ou seja, é necessário um conjunto de pessoas que tenham experiência em entender como esse material vai reagir e interagir com o meio ambiente, tanto no aspecto da coluna d’água, nos recursos não vivos, como água, areia, solo, quanto nos recursos vivos, como a fauna marinha, que, sem dúvida, foi muito impactada.

As autoridades e as empresas de mineração têm a obrigação de começar a investir em mitigação, minimização dos desdobramentos desses impactos causados por essa avalanche de lama que está descendo pelo Rio Doce. Mas não basta tentar sanar os impactos imediatos, é preciso tratar dos impactos que podem acontecer ao longo dos próximos anos, pois eles tendem a ocorrer num tempo maior do que se imagina. Por isso precisa haver um estudo para entender o que aconteceu e pensar alternativas, uma vez que as perguntas importantes e para as quais ainda não se tem respostas são: por que a barragem rompeu? Foi por uma causa natural? Foi um erro de cálculo estrutural da barragem? Foi por causa de um tremor de terra? Ou foi pela falta de segurança do projeto da barragem? Temos de saber o que aconteceu para evitar futuros problemas ambientais.

IHU On-Line - A partir desse desastre, como deveria se repensar a questão ambiental no Brasil?

David Zee – Todos estão cientes de que uma mineradora trabalha com equipamentos enormes, que tem capacidade de remover grandes volumes de solo e produzir enormes volumes de rejeitos. No fundo, no fundo, estamos preparando uma bomba-relógio, porque se não forem tomadas as devidas precauções, se uma nova barragem estourar, o impacto vai ser enorme, tendo em vista o acúmulo de rejeitos por muitos anos. Por isso, é preciso estudar todos os projetos atuais, porque os projetos de cinco, dez anos atrás atendiam a determinadas condições, mas hoje as condições são diferentes, haja vista as mudanças climáticas que provocam chuvas torrenciais. É preciso repensar todos os projetos, e diria mais, a cada cinco anos esses projetos deveriam ser revistos devido ao somatório de rejeitos que estão se acumulando ao longo dos anos.

“A ideia que se tem é de que respondemos à medida que as coisas acontecem, mas na verdade temos de antever os futuros impactos e responder a eles antes que aconteçam

IHU On-Line – O que poderia ser feito de urgente para evitar maiores impactos no oceano e no meio ambiente de modo geral?

David Zee – Seria interessante e bastante prudente termos uma equipe técnica que analisasse a crise em dimensões maiores, e não apenas as consequências locais. Podemos notar que a cada dia que passa os desdobramentos dessa tragédia vão aumentando, e eles são atacados à medida que aparecem, quando na verdade um gabinete de crise deveria ter especialistas estudando essa tragédia numa escala maior, tanto de tempo quanto de área afetada. Apesar disso, não há uma mobilização do Ibama, da Samarco ou de outras empresas e atores diretamente envolvidos nessa tragédia, no sentido de promover um estudo mais abrangente. A ideia que se tem é de que respondemos à medida que as coisas acontecem, mas na verdade temos de antever os futuros impactos e responder a eles antes que aconteçam.

Por Patricia Fachin