Questão indígena no Brasil: “falta uma posição mais decidida do governo central”. Entrevista especial com Dom Roque Paloschi

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23 Outubro 2015

“Em todo o país os povos indígenas estão rodeados pelo latifúndio e pelas PECs, que são subterfúgios para desmontar as conquistas”, diz o arcebispo de Porto Velho e presidente do Conselho Indigenista Missionário - CIMI.

Foto: www.survivalinternational.org

Entre os “desafios fundamentais” da atuação do Conselho Indigenista Missionário – Cimi, que há mais de 40 anos intervém em defesa dos povos indígenas, um deles “é o de contribuir para que a articulação e a mobilização dos povos em defesa de suas vidas sejam fortalecidas e que a solidariedade da sociedade brasileira a estes povos seja ampliada. Enfrentar as perseguições decorrentes dessa opção em defesa da vida dos povos indígenas também se tornou um importante desafio, especialmente a partir da ‘CPI do Cimi’ criada pela Assembleia Legislativa e conduzida por fazendeiros e deputados do estado de Mato Grosso do Sul”, diz Dom Roque Paloschi, novo presidente do Cimi, à IHU On-Line.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Dom Roque Paloschi enfatiza que é preciso “ampliar as denúncias, nacional e internacionalmente, deste conjunto de violências e violações que estão sendo cometidas contra os povos indígenas no Brasil, demonstrando quem são e quais os objetivos dos responsáveis por este processo”.

Depois de dez anos à frente da Igreja de Roraima, Dom Roque Paloschi também foi nomeado pelo Vaticano como novo arcebispo de Porto Velho. “Vou para a nova missão na Igreja de Porto Velho com a consciência de que preciso ser um irmão entre irmãos e irmãs. Estamos no mês missionário e fomos acalentando em nossa Igreja essa consciência de que missão é servir. Peço a graça de Deus de poder abraçar os caminhos da Igreja que está em Porto Velho com muita humildade e docilidade”, conclui.

Dom Roque Paloschi, Gaúcho de Lajeado, foi bispo de Boa VIsta, Roraima e, recentemente, foi nomeado arcebispo de Porto Velho, Rondônia, e também neste ano foi eleito presidente do Conselho Indigenista Missionário - CIMI, e acompanhou de perto a demarcação da terra de Raposa Serra do Sol.

Confira a entrevista.

Imagem cedida pelo entrevistado

IHU On-Line - Como foi sua experiência como bispo de Roraima? Quais questões centrais marcaram a sua atuação à frente da Igreja em Roraima?

Dom Roque Paloschi - Foram dez anos marcados pela rica experiência de uma Igreja marcada pela perseguição, difamação e calúnias, mas que contou sempre com a solidariedade das demais Igrejas Particulares do Brasil, através do Regional Norte I da CNBB e de modo muito especial pela presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Uma Igreja que passou pela grande tribulação, mas foi também uma Igreja marcada pelo testemunho heroico e profético de muitos missionários(as), mas também catequistas, animadores e jovens que não se apequenaram diante da cruz.

A Diocese de Roraima procurou ficar ao lado dos povos indígenas, na busca de seus direitos. Podemos destacar também a generosidade de muitas famílias, religiosos e dioceses do Brasil ou de outros países, que acolheram o convite e abraçaram a missão aqui entre nós. Certamente motivados pela Campanha da Fraternidade de 2007 com o lema: “Vida e emissão neste chão”. Creio também que outra questão importante foi o empenho de todos os cristãos católicos na busca da autossustentação, numa bela caminhada da Pastoral do Dízimo, além da Fundação da Fazenda Esperança como uma porta aberta para acolher tantas pessoas marcadas pela dependência química.

A Escola de Teologia Pastoral com o curso regular em Boa Vista todos os sábados pela manhã e dois Seminários por semestre à noite, e desenvolvendo em dois polos no interior com um fim de semana intensivo por mês, tem ajudado nossos agentes de Pastoral a viver com mais paixão a missão e o ser católico. Outro passo que estamos dando em âmbito de Diocese é a criação da Cáritas Diocesana.

“Os povos originários do Brasil enfrentam ataques violentos por parte de setores político-econômicos ligados especialmente às grandes corporações, que buscam o controle das suas terras para explorá-las

IHU On-Line - Como será sua transição de Roraima para Porto Velho, agora como arcebispo? Quais questões imagina que serão mais urgentes para serem tratadas em Porto Velho?

Dom Roque Paloschi - “Caminhando se abre caminho”. Vou para a nova missão na Igreja de Porto Velho com a consciência de que preciso ser um irmão entre irmãos e irmãs. Estamos no mês missionário e fomos acalentando em nossa Igreja essa consciência de que missão é servir. Peço a graça de Deus de poder abraçar os caminhos da Igreja que está em Porto Velho com muita humildade e docilidade.

Peço a compaixão de Deus para não ser indiferente diante do grito de crianças machucadas já na sua tenra idade, o grito de jovens dizimados pela violência e pelas drogas, o grito de mulheres vítimas da violência muitas vezes dentro da própria família. Enfim, o grito dos crucificados de hoje.

Não tenho respostas prontas aos desafios que a Igreja de Porto Velho precisa enfrentar, não carrego nenhuma varinha mágica, mas carrego o sonho de construirmos juntos caminhos de esperança e paz junto aos povos que vivem lá.

IHU On-Line - Quais são suas principais preocupações e desafios à frente do Cimi hoje?

Dom Roque Paloschi - Os povos originários do Brasil enfrentam ataques violentos por parte de setores político-econômicos ligados especialmente às grandes corporações, nacionais e multinacionais, do agronegócio, da mineração, da logística e da madeira, que buscam o controle das suas terras para explorá-las. Esses grupos político-econômicos não se preocupam com a Vida, com o cuidado com a terra comum. Buscam cegamente o lucro e o acúmulo privado.

O Cimi, junto e como aliado dos povos indígenas, em defesa da vida destes povos, contrapõe-se a estes ataques. Muitos desafios decorrem deste contexto. Um deles diz respeito à importância de se ampliar as denúncias, nacional e internacionalmente, deste conjunto de violências e violações que estão sendo cometidas contra os povos indígenas no Brasil, demonstrando quem e quais são os objetivos dos responsáveis por este processo.

Um desafio fundamental é o de contribuir para que a articulação e a mobilização dos povos em defesa de suas vidas sejam fortalecidas e que a solidariedade da sociedade brasileira a estes povos seja ampliada. Enfrentar as perseguições decorrentes dessa opção em defesa da vida dos povos indígenas também se tornou um importante desafio, especialmente a partir da “CPI do Cimi” criada pela Assembleia Legislativa e conduzida por fazendeiros e deputados do estado de Mato Grosso do Sul.

“Não se faz saúde indígena só removendo os doentes até a capital, é fundamental as ações básicas nas malocas

 

IHU On-Line - Quais são os desafios atuais em relação à questão indígena no país hoje?

Dom Roque Paloschi - Creio que a resposta anterior nos ajuda, mas os povos indígenas enfrentam uma luta desigual, a força das grandes corporações vem solapando os direitos conquistados com a Constituição Cidadã de 1988. Podemos dizer que em todo o país os povos indígenas estão rodeados pelo latifúndio e pelas PECs, que são subterfúgios para desmontar as conquistas.

Sentimos que falta uma posição mais decidida do governo central. A força do grande capital e do agronegócio procura encaminhar os povos indígenas para o extermínio.

IHU On-Line - Qual é a atual situação dos índios Yanomami que vivem em Roraima? Quais são as principais dificuldades que eles enfrentam?

Dom Roque Paloschi - O povo Yanomami não está fora do contexto dos demais povos originários do Brasil, mas de modo particular eles enfrentam um avanço cada vez mais acentuado do garimpo clandestino, com a consequência de que muitas das doenças que chegam são fatais à saúde deste povo.

A saúde indígena está deixando muito a desejar. Não se faz saúde indígena só removendo os doentes até a capital, é fundamental as ações básicas nas malocas. Também a questão da educação indígena passa por um grande processo de discussão.

Por Patricia Fachin