Por: Caroline | 19 Dezembro 2013
Discípula de Heidegger, a doutora em filosofia Dina Picotti dedicou boa parte de sua vida à pesquisa sobre o pensamento latino-americano contemporâneo e sobre a história da negritude na América, isto é, a cultura africana em a toda a sua riqueza artística. Consciente da relação entre sua história pessoal e as suas inquietudes mais acadêmicas, ela disse: “Tendo um marido negro africano, evidentemente o tema era mais próximo a mim. Entretanto, na realidade, creio que minha abertura, para as culturas que constituem a real história da humanidade, fez com que eu pudesse me casar com um africano e que logo começasse a pesquisar, e buscar entender, o que nós somos”.
Sobre Heidegger, diz que é um autor com o qual dialoga permanentemente e que lhe parece fundamental para entender o político e a história das culturas. Não acredita na ideia de que o pensador alemão tenha exercido algum tipo de colaboração com o regime nazista. Traduziu várias obras deste filósofo, assim como lhe dedicou vários artigos.
Ela refere-se ao negro como o primeiro desaparecido da nossa história e luta para que se reconheça a presença afro em nossas vidas cotidianas, sua influência em nossa linguagem, na arte, em nossos costumes. Não como uma relíquia do passado, mas como uma presença viva e palpável, inclusive em relação às características físicas, que variam de acordo com a mestiçagem. “Dizia-se que aqui não havia negros porque ao argentino impôs-se um padrão branco e europeu, mais do que em outros países latino-americanos”, reconhece Picotti, uma das grandes promotoras dos estudos da presença africana no país. “Se não se compreende bem, também não se pode atuar para superar os preconceitos e as discriminações”.
A entrevista é de Verónica Engler, publicada por Página/12, 16-12-2013. A tradução é do Cepat.
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Fonte: http://goo.gl/0P4b3f |
Eis a entrevista.
A senhora é especialista em pensamento contemporâneo e latino-americano, mas dedicou boa parte de suas investigações ao pensamento de Martin Heidegger. Quais foram os temas que a levaram a se especializar neste autor?
Quando era estudante e comecei a ler Heidegger, interessava-me muito a abordagem histórica que ele fazia. Sua perspectiva tem o propósito de superar a metafísica, pois ela teria esquecido a dimensão originária, que é o ser-aí, questionando-se apenas sobre o ente do homem e das coisas, esquecendo-se de perguntar sobre o ser em si mesmo. E isso me fez perceber que, deste plano mais originário, que é o ser-aí, poderia-se pensar sobre qualquer história. Por exemplo, quando ele diz que não é o homem que traça seus caminhos às coisas, mas que são as coisas que concedem ou negam os caminhos. Porque as coisas já estão, não é o homem quem as cria. Então, se eu quero ir ao Amazonas, não posso ir de qualquer maneira, mas da forma como o Amazonas me permitir. Por isso, interessou-me muito o pensamento de Heidegger, sobretudo em uma obra que traduzi, “Contribuições para a filosofia”, que trata de um outro início do pensar. E o outro início seria relativo ao “Eu penso” cartesiano, o outro começo é o próprio ser-aí.
A senhora conheceu Heidegger quando esteve na Alemanha, realizando seu doutorado e teve a oportunidade de trocar ideias diretamente com ele, não é verdade?
Sim, porque à medida que fazia a tese surgiam algumas dúvidas e então pensei em perguntar a ele próprio algumas questões fundamentais. Escrevi para ele e, como ocorre com toda grande personalidade, respondeu de imediato, não se incomodou que eu fosse uma aluninha com a qual não tinha nenhuma obrigação adicional. Pude visitá-lo em sua casa em Freiburg, justamente no ano em que completava seus 80 anos, e pude ter uma longa conversa com ele. Impressionou-me muito a disposição que tinha para tudo aquilo que eu procurava pensar. Perguntei-lhe, por exemplo, sobre sua ideia de homem como habitante de um mundo, mas que também reúne as quatro dimensões da realidade, quer dizer: quando sabe abraçar o céu, salvar a mãe terra e não dominá-la, acompanhar os humanos e venerar o sagrado. Interessava-me saber o que entedia em relação ao sagrado, principalmente no que se refere quando comenta a poesia de (Friedrich) Hölderling. Respondeu-me que o sagrado é uma dimensão da realidade, que era o que eu intuía. Quer dizer, o sagrado está em toda a realidade, porque toda a realidade é transcendida, de alguma maneira, como ele mesmo disse, toda coisa é abrigo do ser. Houve um intercâmbio muito lindo, muito frutífero, uma possibilidade de falar com tranquilidade... foi muito importante para mim. Depois, mantive o contato com ele visto que, ao regressar para Argentina, fui responsável por um seminário especial, no qual sempre tratava de algum tema heideggeriano e a tradução de textos, como as Conferências sobre a linguagem, para cuja publicação solicitei a sua autorização.
E como estava a discussão sobre o apoio, ou não, de Heidegger ao nazismo?
De alguma maneira, já estava resolvida. Entretanto, como eu estava tratando de seu pensamento, evidentemente queria saber, ou confirmar, pois ao ler sua obra em nenhum momento surgiu a suspeita de que pudesse ter apoiado um sistema totalitário. O que eu pensava era que sua ideia sobre o político era muito semelhante à de Nietzsche, em seu devido contexto, que também sofreu acusações. Quando se discutia sobre a origem do político no século XVIII, Hegel havia expressado, frente à posição de Hobbes e de Rosseau, do contrato social, que a origem do político nunca pode ser o contrato porque para poder haver um contrato já é necessário haver alguma relação. Ele disse que a origem do político é a organização da comunidade histórica, a qual supõe uma concepção do homem como membro de uma comunidade e não como uma espécie de átomo isolado ou abstrato. E toda a comunidade se organiza através de instituições. Hegel já dizia que as instituições são como órgãos que o corpo comunitário cria para viabilizar e satisfazer suas necessidades. Pessoalmente, gostava muito dessa perspectiva de Hegel e me parece que essa visão estava também em Nietzsche e em Heidegger, enquanto esperavam uma organização política que estivesse em sintonia com os valores, com o modo de vida dos alemães. Então, o nacional-socialismo, que teve diversas orientações, de alguma maneira, parecia apontar para isso. E parece que ele aderiu a uma das linhas (do nacional-socialismo), que não foi a vitoriosa, que não foi a de Hitler.
Todavia, além disso, ocupou um cargo como reitor da universidade, quando Hitler estava no poder.
O que lhe interessava era elaborar uma reforma, coletando o que já havia sido discutido anteriormente, e isto aparece em seu famoso discurso como reitor, que muitos citam, mas que creio que não foi lido apropriadamente porque, nesse discurso, o tema principal é a reforma da universidade alemã. E por reforma entende-se que a universidade, tida como uma mera administração de carreiras, acaba perdendo o vínculo essencial com a filosofia, as ciências e a técnica e que, de alguma maneira, a universidade deve voltar a conceber a si mesma a partir deste vínculo essencial. Isso é o que Heidegger planejava. Contudo, o que a maioria vê em seus textos são algumas palavras que podem ser consideradas de apoio ao regime e que por ter aceitado a reitoria, em uma época como essa, significa que estava de acordo com o regime, coisa que não ocorreu. Por isso, encarreguei-me, pessoalmente, em falar com pessoas que o conheciam e que não eram suspeitas em querer encobrir tais relações como, por exemplo, os fenomenologistas Walter Biemel e Otto Pöggeler, e o orientador da minha tese, Max Müller. Nenhum, de maneira alguma, aceitava essa versão, mas confirmaram o que eu pensava acerca da ideia sobre o político de Heidegger. Sem dúvida, fez declarações que poderíamos qualificar como imprudentes, por exemplo, em algum momento quando falou do “condutor”; ou em alguns discursos que fez sobre os estudantes, que podem ser associados à direção que o nazismo seguia naquele momento. Mas, ao mesmo tempo, sabe-se que muitas vezes foi observado pelo partido por não fazer o que era esperado por este, isto é, a submissão da universidade alemã. Por exemplo, quando foi reitor nomeou como decano alguém que o partido havia excluído. São atos que mostram que ele não havia se curvado às diretrizes do partido, pelo contrário. É certo que se enxergava vindo o que logo veio, mas nunca apoiou o regime, nem o Holocausto. Outra acusação que é feita a ele é a de que nunca se pronunciou. Entretanto, isto teria sido um diálogo de surdos. Ele já fala em toda sua obra e creio que isto basta.
Como chega a estes temas tão complexos? Da filosofia até o estudo da negritude e da presença africana na Argentina?
Quando alguns argentinos, como eu, voltaram nos anos 1970 de seus doutorados nas universidades europeias ou norte-americanas, perguntamo-nos: E agora, o que nós pensamos? Ficou claro a todos nós que deveríamos pensar nossa própria realidade, que ainda não conhecíamos. Da minha parte, comecei a perceber as diferentes culturas que existem em nosso território, comecei com os indígenas, a mestiçagem e depois o negro africano. Tudo isto veio a partir da ideia de que tinha que começar pela própria existência histórica, todavia, antes tinha de conhecê-la em seus próprios termos. Tomei as culturas porque acreditava que deveria conhecer nossa comunidade histórica, composta por inúmeras contribuições que vão desde os povos originários até as últimas migrações. Perguntei-me o que aconteceu com o negro, porque sempre se dizia que “não há negros aqui, e os poucos que houve foram mortos ou morreram com as pestes”. Entretanto, dei-me conta de que o negro estava presente em todos os aspectos. Buenos Aires foi o lugar de entrada na época da escravidão, para distribuir os negros por todo o Vice-Reinado, até o Chile e o Peru. Tudo o que chamamos, de alguma maneira, de “cabecita negra” não é apenas a mestiçagem de um índio com branco, mas de índio, branco e negro, ou seja, o “zambo”. Há estatísticas do século XIX que dão uma porcentagem de até 80% de população negra em algumas regiões do interior. A Buenos Aires colonial tinha um terço de negros. Contudo, dizia-se que “aqui não há negros”, porque o argentino coloca a si mesmo em um modelo branco e europeu, mais do que em outros países latino-americanos.
O que é a negritude? Como o conceito foi evoluindo?
Não há uma lógica para apreendermos a diversidade, ela deve ser construída e por isso falo da interlógica. Esta é a famosa perspectiva sobre a negritude que tem alguns poetas africanos e afro-americanos após a Segunda Guerra Mundial, entre eles (Léopold Sédar) Senghor, que posteriormente foi presidente do Senegal. A intenção deles era, através de suas poesias, levar ao conhecimento as excelências de suas culturas. Não esqueçamos que o negro foi subjulgado, para justificar o injustificável: o processo da escravidão. A África devia ser mera natureza, deveria ser próximo ao bárbaro. Então, a reação destes poetas era mostrar as qualidades da África através da poesia, e a isto chamaram negritude. Significava dar o valor real das culturas africanas, arbitrariamente desconhecidas. Por isso, Sartre escreveu um lindo prefácio à publicação francesa dos poemas de negritude, que logo foram publicados com nome de Orfeu Negro, no qual ele dialogou com todos os poetas. Para mim foi um dos primeiros trabalhos interculturais que se conhece. Ele teve a capacidade de se abrir a esta novidade que eram os poetas negros, assumi-la e mostrar que diziam algo valioso para todos nós. Esta é a questão da negritude, e é neste sentido que devemos entendê-la. Depois vieram críticas a essas palavras e a essa concepção, críticas que vieram dos próprios africanos que diziam que era algo meramente literário e que não buscava atacar o poder ao qual eram submetidos. O que, de qualquer forma, não me parece válido, visto que se não se compreende bem a si mesmo, também não se poderá atuar efetivamente para superação dos preconceitos e das discriminações que há em relação ao negro.
Em seu livro “A presença africana em nossa identidade” há referência à figura do negro como o primeiro desaparecido de nossa história. Por que pensa dessa maneira?
Posso lhe dizer que a questão do desaparecido tem, entre nós, uma longa história, que não se resume a uma ditadura apenas. Um dos desaparecidos é o indígena, visto que não é assumido como ele é, a partir dele mesmo; outro grande desaparecido é o negro: nega-se sua existência e, quando não se pode negar, é considerado como não tão importante. Em nossa educação regular nem sequer temos a língua indígena e menos ainda sabemos sobre o negro. Estamos ignorando nossas próprias características, que são a mistura da população que temos. Calcula-se que em todo o processo da escravidão chegaram cerca de dez milhões de negros nas Américas, sem contar aqueles que morreram no trajeto, visto que morriam ao menos metade dos que eram trazidos. Sangraram o continente. E isso deve ficar claro, pois não houve apenas um Holocausto. Para aqueles que sobreviveram à escravidão, somou-se um processo de aculturação, pois foram retirados de seu país ainda muito jovens e aquele que é muito jovem ainda não tem sedimentados os valores de sua própria cultura. Posteriormente, houve o que poderia se chamar de “técnicas de aculturação”, por exemplo, o fato de submetê-los a esse modo de vida diferente. Mas, apesar disso tudo, resistiram fortemente.
O que resistiu dessas culturas, após este processo de aculturação?
Muitas coisas, por exemplo, as línguas, como língua crioula. Eles resistiram em sua forma de vida, como quando organizaram os palenques (lugares ou concentrações politicamente organizadas por negros escravos fugitivos, próximos à fonte de água e de alimentos, com lideranças que exerciam sua autoridade no interior dos mesmos), também resistiu, em grande parte, a sua literatura oral e seus costumes. Toda América Latina foi formada por estas culturas e suas formas de vida. Toda cultura viva sempre se recria, ainda mais quando se vê obrigada a estar em um contexto diferente do seu. Um exemplo típico é jazz, ninguém pode negar que é um produto africano, mas contêm muitos outros elementos, todos aqueles que o negro encontrou aqui. O ritmo africano está em tudo, não apenas em nosso continente, mas em toda a música contemporânea. Então, deve-se falar sobre a diáspora africana através deste processo forçado de escravidão, mas, além disso, também das suas próprias migrações em todo o mundo. Por isso, há relativamente pouco tempo, a União Africana (UA) declarou como sua sexta região a diáspora africana, o que foi uma grande medida política, que pode beneficiar o próprio continente africano quando este assume a todos os africanos que estão no restante do mundo, e também significa um grande apoio para aqueles que estão fora e que nunca foram considerados na mesma situação, e com os mesmos direitos que os demais habitantes.
A senhora fez uma grande compilação de vocábulos argentinos de origem africana.
Sim. Através da Universidade Três de Fevereiro, pudemos publicar o dicionário que Néstor Ortiz Oderigo, um dos primeiro africanistas argentinos e com pouco reconhecimento no país, havia reunido. Pudemos fazê-lo graças a sua sobrinha, Alicia Dujovne Ortiz, que nos cedeu a obra que havia herdado. Isso foi pouco tempo após criarmos o curso de especialização em estudos afro-americanos, dentro do Mestrado de Diversidade Cultural da Universidade. Nesse momento, falamos com o reitor, o licenciado (Aníbal) Jozami, e ele não apenas assumiu que esse material fosse inserido e fichado na biblioteca da pós-graduação, como também se comprometeu em publicar até cinco obras. A primeira foi esse dicionário. Ficamos muito felizes em fazê-lo, mas, além disso, tivemos a sorte de ter o assessoramento de um linguista africano, o professor congolês Daniel Mutombo, que reconheceu o grande conhecimento que Ortiz Oderigo havia conquistado. Em breve, será publicado o epistolário, que é a quarta obra, na qual aparecem as correspondências que ele tinha com outros especialistas internacionais em estudos africanos. Foi uma pessoa muito admirada pelos demais, mas não pelo seu país. Apesar de tudo, a sua importância, entusiasmo e constância merecem nosso reconhecimento.
A senhora foi decana da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Morón, durante quatro períodos consecutivos, de 1974 a 1990. Como foi estar à frente de uma faculdade durante a ditadura?
Eu estive, mas não tanto por vontade própria. Porque quando terminei o primeiro período, veio a ditadura, e então me diziam que “não precisava mudar nada”. O período da ditadura foi difícil porque tínhamos os Serviços de Inteligência que vinham e perguntavam por estudantes e professores. Lembro-me de uma vez que um policial veio e trouxe uma lista de alunos e professores, e a primeira coisa que me perguntou foi: “O que dizem sobre o governo na faculdade?”. E eu lhe respondi: “Bom, na faculdade nos preocupamos com os estudos das carreiras”. E, então, perguntou-me sobre Jaime Rest, que nós sabíamos que havia sido consultor em uma época de mudança de planos e de quem nós realmente gostávamos muito. Então, eu lhe disse: “Olhe, lamento não o ter como professor... porque morreu, se não fosse assim eu o teria aqui”. Acredito que com esta resposta ficou impressionado e se foi. Em outra ocasião houve alguém que, quando a polícia chegou, fizemos-lhe sair por outro lado, e depois conseguiu ir para o México. Salvamos quem pudemos, porque naquele momento o que importava era salvar vidas. Essa era a minha postura e a do reitor naquele momento, sendo muito difícil. Todavia, lamentavelmente, quando eu fui à Alemanha, durante três meses, sequestraram a presidente do centro acadêmico, que morreu com a tortura. Não podemos salvá-la porque ninguém ficou sabendo a tempo, portanto, também tivemos vítimas.